terça-feira, 21 de maio de 2013

Poemas anônimos ( I, II, II )


I

 inútil seria te ouvir ou ver.

 há muito as ideias estão párias ou célebres
 gravadas em cristais trincados.

 portanto, seria inútil tocar-te
 hoje ou antes. sei da fragilidade do tempo

 estou só como uma mulher que, no trânsito
 ilhada em destinos de outrem
 vende passatempos e doces. delicada forma.
 presa entre passagens
 sem ir a lugar algum.

 II

 entretanto, procuro-te.
 mesmo sendo inútil a ti tocar ou ter.

 já não navegam em funções de amor
 as razões, pássaros espontâneos - madrugam, apenas
 invernais. procuro-te em fuga.
 fuga de mim.
 dum fluxo atemporal
 que julgo meu.

 III

 sons exangues são aqueles das canções
 onde se violam dor em canto.
 (poemas violados em deleite)

 porém não são como coisas vivas,
 encontradas em matéria morta.
 assemelham-se às estrelas que batizamos
 pois, assim nomeadas, ganham o dom da fala
 cremos ouvi-las, sem entretanto

 compreender.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Sombra


 o futuro é um susto

 passos noturnos
 que madrugaram

 página vazia na qual escrevo poemas
 que ninguém leu

 jogo absorto palavras doces, neste mar, branco
 onde navegam eternas
 sem morte _ agonizam

 partem as horas a partir do Sol
 as distâncias, das estrelas
 a idade, dos vincos vogais

 sussurram entrementes
 mentalmente
 um sobreaviso

 "ele entrega o amanhã"




domingo, 19 de maio de 2013

Espanto para domingo à noite


 o mundo é grande
 cabem os bancos dos cafés

 porém pequeno
 não cabem todas as estrelas

 nesse momento
 existem planetas vivos - não os veremos

 no meu corpo cabem sons

 não cabem outros sentimentos _ logo saem
 pelas mãos, olhos e outras frestas

 não cabe viver, viver não existe

 viver é contar histórias.


Sonolência para domingo à tarde


domingo úmido
 gotas de som


_ postes de luz
   a vapor


 vibrações

está proibido viver
à beira de considerações.



Suor


num farol da avenida tiradentes, A mulher vende água gelada _ eu achei curioso que do seu corpo escorresse o suor vivo _ talvez se ela pudesse colher o próprio suor para vender _ as pessoas, obviamente, não o beberiam _ porém se o guardassem _ juntando aquele suor ela própria nascesse _ ou ainda uma outra mulher, que vendesse água gelada no farol _ eu acharia tão curioso que do seu corpo nascido do suor escorresse mais suor vivo e ela, serena, sequer percebesse ou se desse conta de viver.

Cisco

voam do saara
até seus olhos

dourada e seca

são presentes
alísios, atlânticos

fina poeira


(tez machucada
 memória erma)


da cor delicada
dos teus cabelos.
















sexta-feira, 17 de maio de 2013

Impressionismo


 gosto como o rio corre amplo, profundo

 em direção ao mar ignorante
                              amplo
                              profundo

 o erro da folha flutuando na corrente
 foi não saber ser menos
                                    que o tempo

 recolheu em vincos dias verdes
                               dias de sol
 pesados - porém ela cai leve e serena
 segue na
              corrente
              em direção ao mar amplo, profundo

 longe, gosto como corre, não enxergo folha

 penso então que eu mesmo, entre rio e folha
                   poderia cair leve e sereno
                   no ignorante,
                                      amplo e profundo.