quinta-feira, 16 de maio de 2013

Diário íntimo



 _ certa vez eu conheci alguém
    que gostava muito de chico

    nós nos esbarramos num armário

 (às vezes parece
 que possuo lembranças que nunca vivi)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

3


 ***

 o que é um homem que viaja só com seu sonho? será preciso despertar um menino do sono? eu me pergunto sempre e outra vez me repito: perdão se me engano, pois está vivo, fechou a janela pois um homem viaja só com seu sonho ... mas nesse homem só se vê menino com capa de super-herói ... diz pra mim, como será possível forjar um homem? estarei sempre buscando qualquer verdade, qualquer matéria real num mundo tão fugidio e fugaz, leve, etéreo, bobo? - mas não para chegar à verdade, senão para percorrer o caminho e, dessa forma, imaginar viver? mas este sou eu, contido em mim ... e não estou me descrevendo somente ... e não sou aquele que, protagonista, conta qualquer coisa. isso significaria apenas um homem querer estar despojado de impressionismo mentiroso na tua órbita, falando de céus e chuvas para te fazer despertar, de levinho, e se encantar vendo a beleza da rua ladeada de árvores tão bonitas. e é tão distante que se poderia adormecer ... é tão mágico que se escrevem parábolas ... mas é preciso impressionismo, e é preciso mentir ...

 não - não posso lançar perguntas tão pessoais, ainda que tão próximas daquilo que se precisa contar. perguntas mais amplas serão necessárias como por exemplo: você precisa encontrar as pessoas e ficar de mãos dadas com elas, conversar com a boca e os olhos do coração? 

 ... os olhos do coração se abrem brevemente ... medo da cicatriz ... a boca segreda medos amordaçados ... nossas mãos são pontes para o outro, constantemente fechadas - e por isso nos as lavamos tanto, é preciso não tocar não tocar em coisa alguma ... parece tão óbvio hoje como antes era mais ...

 ... mas isso é porque um homem viaja só com seu sonho - e não pode ser forjado dum garoto que, a ele, apenas resta crescer ...

 ***

 um casulo vazio e seco. você deixou para trás qualquer coisa infinita e diminuta, imemorável e permanente. algo como uma sensação talvez que você repita sem perceber ele se desenrola em outra que se percebe sem repetir ... agora não se pergunta mais o que foi - mas entende que ele não poderá nunca mais ser apenas mais uma pessoa que, num dia normal, pega metrô e encara o vazio.

sábado, 4 de maio de 2013

2


 explicaremos agora o porquê de um gesto silencioso: uma palavra abria caminho do estômago para sempre. costurava uma reta, descosturava torturas apagadas, regurgitava e ele precisava dizer e ser dito. entretanto como imperava uma pausa na partitura, sobrou o gesto - seco - duro - sem aspas. um tornado, ele era o tornado encontrando a terra seca, o tempo frio esbarrando no calor perverso dum verão: a monção. todas as suas ações necessitavam de violência ou de ternura, mesmo as pequenas, duas opções claras sem meio termos. os meio termos são fraquezas são dúvidas, anti-matéria da cruzada que perseguia. a sensação que possuía era a de matar um homem, nas palavras mais quentes da tarde, espero que você seja muito feliz. como somos justos, precisamos contar um fato ou uma história escrita. abandonar essa descrição da linha que ligava dois momentos e falar do que eles são feitos, um garoto quieto que se transformou em homem e _ o que foi um gesto silencioso?
 o primeiro momento um testemunho (o segundo): choro convulsivo numa praça. vamos te contar esse fato imprevisível ... ele voltava para casa. era simples. voltar como se não houvessem opções. voltar é todo um ínterim porém, e nesse ínterim ... temos que contar ... adivinhou a vida ou a história ou ainda o tema da canção que cantava ou escrevia como se numa noite vislumbrasse o futuro. recebeu no celular uma mensagem. e dela adivinhou. baque surdo que atingiu em cheio as sutilezas do olhar e lhe deu um nojo, uma náusea que não passava e não permitia ... então no caminho, parou numa praça onde vomitar foi regra e chorou com um desespero desconhecido de si. com exceção da testemunha, ninguém viu, e por isso há o mistério dessa noite incontida . mas estamos longe do gesto. 
 precisamos do segundo momento.
 no quarto, uma cama e ele está sentado. não há testemunhas e apenas adivinhamos que era assim pois esse é o caminho que o narrar percorre e sustenta. mas também não podemos detalhar tanto, sabemos que era e num relance ele olha para a vida e o futuro cristalino percebendo a consciência. lembre-se da xícara que se quebra e é irreversível, essa tristeza da xícara está contida nos dois momentos ... saber que, sendo medeia, morreria e mataria - sendo jasão, mataria parte de si e falhar - talvez seja até mesmo a própria linha que liga os dois momentos. como algo que se parte está quebrado para sempre sem que um gesto revolva os vulcões do inevitável. um gesto. 
 o gesto em silêncio.
 foi tão fácil que era até cruel, tão simples que era só voar sem aprender. varreu uma existência para sempre sabendo não varrer, decidido a não ver o amanhecer acordava sempre às nove. e se contássemos pareceria tolo porque foi. então não contaremos mas, ele sabendo ser a linha que uniam outros dois momentos distintos, soprou-a simplesmente. 

***

 tememos entretanto ter falado de um garoto-homem, de momentos de sua vida e de um ato importante mas termos perdido algo nesse ínterim. talvez seja uma história de amor, e seja preciso explicar isso. talvez seja um capítulo perdido dum roteiro de drama. ou talvez etc etc e perderíamos muito tempo em considerações. a verdade crua é a confissão sem medo, despojada, e confessamos portanto não saber, de fato, do que se trata por serem muitas coisas. 
 seria preciso dizer que se trata de algo, de fato? a vida é sobre tantas coisas, da mesma forma ... ele cresce, ama, ri e chora e vomita essas coisas ... e o mundo se estende em planícies infinitas, visto de longe - o mar também amanhece e noviças fazem milagres à noite, ao céu, aos ventos. se fosse apenas outra história de amor ... ou uma peça ... mas ainda que haja amor e drama, queremos falar do que não é dito. de como numa manhã ele ouve sua voz e o tempo estanca, vibra. poemas nascem entre sonos, dias percorrem veias, e tudo se prolongou sem que se percebesse. essa narrativa deseja isso e, se possuímos um objetivo, aqui está. abrir um corte no pulso do garoto-homem e entender, onde porquê e como um dia amarelado de sol pode tomar nomes diferentes, impronunciáveis. 
 será, enfim, fazer a autópsia do casulo qual, ao se transformar em homem, abandonou para sempre deixando atrás de si cor, vislumbre e inocência.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

1


 existem dois momentos, um supostamente passado e outro supostamente presente (porém se ele está sendo narrado agora isto significa que ele já faz parte do mesmo passado que o primeiro. e os passados não tem fronteiras, podem se misturar deixados a mercê da memória ou da confusão ou da bebida ... ). a linha que os liga começa, logicamente, no primeiro, com uma frase complexa - será possível achar um caminho ou quem sabe um meio-termo, pois estou estou louco e é como amanhecer e estar perdido de si, caminhando insone. eu deposito etc etc. e, por ser um começo de frases, está entre sombras, outras palavras não ditas debaixo do texto precisam falar como testemunhas oculares dum crime político _ ele já sabia (testemunho nº 1) _ na corda fina que separava a realidade do desejo, sentiu dor (testemunho nº2) _ a essa altura, sentado numa praça, chorou convulsivamente, sem aparentemente saber por quê mas como se antevisse o futuro, sozinho (testemunho nº 7).
 um começo muito delicado para ser contido num primeiro momento. a linha prossegue seu caminho de existir mas preferimos ocultar uma narrativa, para isso existem romances e pilhas de contos e blogs pessoais. queremos o segundo momento. onde o futuro desabrocha e morre sem murchar. a frase que termina a ligação dessa linha tênue é mais simples, será? não queremos destrancar seu signo íntimo e espesso ou talvez ela não signifique nada. as vezes que percorro com os olhos meu corpo e vejo o vazio profundo em forma de buraco-negro de bala, fico calado e hesito, hesito entre existir e desistir, em ser gente e ser lobo. não há testemunhas para o crime que se cometeu agora. uma mulher no ponto de ônibus disse para ele  não namorar que dava trabalho e os moços deviam estudar, né? uma pessoa que passeava com um cachorro olhou firme em frente ... mas isso são migalhas, coisas sem importância e não tem valor jurídico ...
 deus, escrever é tão dificil que precisamos desistir de ser gente e ser outra coisa. 

*** 

 afinal, o que será isso? dois pontos distantes no tempo ligados por uma linha que mal existe num plano real e táctil ... onde as coisas se transformam pra sempre? esse não é o caso de um porta-retratos que te lembra alguma coisa. no limiar entre estar só ou em si, um garoto precisa crescer. ele é esses dois momentos tão profundamente como ele deseja ser um terceiro ponto no vácuo. esse é um caso de um inconformismo com o acaso. temos poucas provas, havia verdade e ela é inútil agora. ele sabia antes e depois veio a certeza, que é uma verdade confirmada em si, e depois um desespero e depois ainda, muito depois, no segundo ponto: essa tristeza diante de qualquer coisa infinita e irremediável. a priori por que era um garoto e todos os sentimentos nessa idade são ou levianos ou muito profundos e truncados, e ele por infelicidade de acaso era do segundo tipo de pessoa assustada e quieta - porém séria sempre, até seu riso era sério ainda que nunca parecesse, tudo estava sombreado. de verdades, também. ele deu muitos nomes as coisas como: vela, navio, amor ou tempo e eram verdades. mas contra a indiferença são mortos dom-quixotes ... e o acaso não poderia ter sido mais criança, se fosse consciência de qualquer coisa. será sobre isso? ou estamos apenas tristes? talvez seja mais simples como uma xícara quebrada é irreversível. o segundo momento se confunde com o primeiro mas com os olhos secos inundados de realidade apenas. uma frase nasce da boca, me perdoe a intolerância mas perdi seu nome e virtude num buraco-negro de bala ... que partiu a porcelana do meu peito ... em mil constelações.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Único poema em verdade


 no frasco noturno
      onde guardo macias
 palavras
            soturnas
 jovens
     leves demais

 aquelas que formam
                    frases
 moças
          delicadas formas

 vaga-lumes
                insones

 ...

 três mortas secaram

 ...

 no frasco noturno onde guardo instantâneos
 notas frias
 voavam sem luz.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

"como rosa ou barco"


 tendo visto a vida assim de perto, muito lúcida e muito clara, não é possível que me ocorra qualquer engano de voltar atrás no que vi ou_vi(vi). as palavras jamais traduzirão a perplexidade que não me coube. a mão solta no trigo inconsciente duma vida que poderia ser qualquer uma _ que percorre o além de mim. estou perplexo sem poder ser simples novamente, embalado na onda vaga onde depositei meus ombros como rosa ou barco. assim toda dor se tornou palavra nova da lição estranha e incompreensível de estar consciente ... mas se eu não pude sentir cada coisa como forma plena e sólida, então terá sido um engano e eu apenas me deixei ser jovem e errar ... evito isso. gravo mensagens em grãos de areia móveis e claros. já não desejo passado mas desejo passar. 
 pude eu ser rota de passagem ou rito de mudança? nem um nem outro - talvez vírgula - e mesmo que não doa, prefiro não reler o discurso, tampar os ouvidos e adormecer. quero tomar outro rumo. vi a vida muito de perto. como rosa ou barco.

(inspirado em poema de c. meireles)

Um conto, mas entre parênteses


 escrevo por não existirem outros meios - escrevo onde a pedra é fria - minhas razões são libélulas ...

 (é domingo. minha mão seguiu um gesto e estancou numa vitrine. é preciso não escrever mas escrevo pois preciso, um oco, vento vazio, a droga repetida que persegue meu sangue, persiste mesmo agora - nada importa agora - você não viu os dias em que eu estive distante de mim e me mandei cartas que não chegavam nunca. em que estive diante de mim e não me via. enquanto me calei ... pois há um erro em mim que penetra fundo - uma tristeza de pensamento - quando sufoco a solidão e não entendo. somos todos solidão. mas é outra solidão, aquela que persegue um amor expresso mas chega atrasada de propósito ...
 passo a me pertencer aos poucos? o que vejo é sombra ilícita percorrendo ruas e ruas de batismo incerto... agora eu entendo que saí de mim e me voltei, mas voltei para onde e quê? só encontrei a necessidade de tocar o que está fora de mim. eu pedia apenas uma noite em silêncios divididos, mas era muito que pedir então me amordaçam com discursos ...)

 meu nome não é mais feito das mesmas palavras .

 .