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sábado, 13 de fevereiro de 2016
Acho que entendi
'que horas você pode?' 'ainda não sei' ( ) 'é que eu precisava muito sabe' (...) 'precisava do que?' 'precisava dizer algumas coisas' 'não dá pra dizer agora?' 'é que ... é que ... olha não não dá é algo assim que eu não sei bem dizer então preciso dizer pessoalmente' 'tudo bem' 'sabe ontem eu vi ele' 'ele quem?' 'aquele do dia da chuva' 'não lembro' 'aquele das escadas' 'sim' 'eu vi ele e fiquei voltado no tempo' '...' 'fiquei pensando nessa época toda' 'o que você sentiu?' 'achei graça' 'de ver ele' 'nada' 'nada mesmo?' 'não' 'vocês transavam?' 'não' 'talvez por isso' 'eu tinha um pouco de pena sabe' '...' 'é que eu queria muito cuidar sabe' 'cuidar como?' 'não sei, um carinho qualquer coisa, ele não tava bem sabe' 'não entendo' 'eu também não muito' ( ) 'me fala de você' 'eu o quê?' 'o que tem aí dentro?' 'dentro de onde?' 'dentro de tanta pergunta' ( ) 'não entendi' 'você já se assustou olhando no espelho?' 'não' 'é assim: você olha no espelho e vê alguém, mas por um momento você separa sua imagem de você e quem vê não é quem é visto' 'talvez' 'eu não me vejo no espelho' ( ) 'talvez quem você veja não seja quem eu sou' '...' 'sabe?' 'acho que entendi' ( ) 'mas a gente gosta de quem a gente vê' 'então' 'então o quê?' 'era isso eu eu preciso dizer mas ainda não sei' (imagem se forma na mente. passa um ônibus.) 'eu vou embora viu? me manda mensagem' 'ok' 'não esquece' ok
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Catedrais, Turistas
rajadas violetas, quebram-se, em vitrais. altas imagens, santos, altar central. a catedral de santiago do chile é um lugar muito triste, esgota a paciência. a catedral da sé por sua vez é triste mas é brasileira, e nisso feliz. entrar em catedrais, igrejas, um passatempo tão infeliz. a igreja anglicana de Valparaíso sem cruz sem adorno lembra uma beata seca, pura, austera. não há vitrais, a água-luz esparrama líquida, imagino - não entrei nela. imagino também o silêncio do edifício vazio, a saudade dos muros de ingleses chilenos que são pó na terra hoje, asco dos turistas todos. os turistas causam um certo nojo, mesmo aqui no Brasil onde o estrangeiro é tão venerado. há algo obsceno no turista, cria uma inveja estéril deixando a gente toda no vazio. essa pessoa sem casa, sem mundo, essa pessoa chegada de longe sem raiz, observando com olhos fluídos o que corre pelos olhos.
essa pessoa sem casa que está pura diante do desconhecido. talvez não queria nem entender o que se apresenta, absorve vitrais águas-luz estilhaços multicor sem afinco, sem pressa. (há turistas e turistas, refiro-me aqui aos viajantes portanto, aqueles cujo entretenimento é tudo que se lhes alcança os olhos, toda realidade nova vibrante do exótico não pertencer). a catedral é pela primeira vez compreendida em sua simplicidade - prédio de culto religioso adornado - extraído de seu contexto talvez pronto para ser só edifício. imagina esse viajante alguém de outra cultura não-cristã, até mesmo: alguém que desconheça o significado de igreja. estar ali onde não se conhece é desconhecer significados prontos, estar mais próximo da coisa simples da coisa.
por não me ser familiar, amo aquilo que vi por completo, pois vi sem saber o que era antes e sem anteceder seu futuro. aceitei seu presente como dádiva e abracei na memória a passagem por tais vielas escadarias ruas.
seremos também templos? cheios de dogmas, eucaristias e sacramentos, mas vazios tão vazios durante as semanas, adornados, cercados por vitrais. a luz entra também na gente se estilhaça. me perdoe o que é familiar mas, tão cheios de passado, tão sedentos de futuro, se perdem no que sou e me desconhecem. de repente uma visita estrangeira me assusta me grita me exaspera - quem abre as portas assim, não reverencia os santos, muda flores de lugar? dessacralizado somos não templos, não edifícios, não gente não nada, oh entidades... somos aquela coisa prima, aquilo que vê o espelho e murmura um grito de prazer intenso: sou; portanto, vê-me e aceita, comunga comigo esse medo de saber.
visita estrangeira, conta pra mim este mistério em que vivo!
visita estrangeira, conta pra mim este mistério em que vivo!
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Memória / Loucura
o verão apaga o inverno, mas fazia frio, e a tarde deixava cinza a cidade cinza, e os carros zuniam abaixo dos pés, na histeria louca de buscar no fim das coisas o que se encontra no meio delas - o trajeto é o objetivo, necessário andar em tempos sedentos, urgentes. e são tempos em que tudo se acompanha de trilha sonora, mesmo experimentar o vazio. não só o vazio da caminhada solitária pelo viaduto mas pelo vazio da primeira descoberta: a vida é o trajeto, não os fins que ela encerra. e que amar era essa ponte pro outro e esse assombro de reconhecer nele o mesmo abismo de morrer. todo o romantismo surge duma farsa, o amor pedia a reinvenção de tudo. do outro lado do ringue materialista era aquela saudade absurda ...
e toda a realidade em pontas afiadas, e o ser fina membrana, célula solta no espaço. a gente finge não ver a pessoa na janela e ela finge ignorar o caminhante solitário mas eis ambos na realização de existir - o outro em seu desconhecido te vê e te sabe. as formas tênues das coisas se revelam, se despem, a razão dos prédios, a razão das plantas, o medo do assalto e onde se pode comer num domingo já ao anoitecer, quando as coisas estão tão quietas e tão amedrontadas por poderem voltar a representar a segunda, enésimo ato da peça que criamos mas botamos a culpa em deus, na moral, na sociedade, no direito na lei na propriedade privada etc. uma mulher cansada sai do seu trabalho e pega um ônibus meio vazio em direção ao jardim ( ) e comemora a folga quando todos trabalham. alguns não querem representar e se matam.
***
insisto em encontrar no amor romântico, nessa vontade adolescente louca copiosa kitsch clichê ai que delícia! a causa dum mal terrível, o fim da razão, uma farsa. porém: como aprenderemos? e se a loucura aparente for a prevenção contra a loucura real? o impulso de se envolver com essa incógnita que é o outro, e querer se doar assim nos prevenindo da solidão iminente... qual o limite entre farsa e criação? quando criamos aquilo que nos encanta, nos ensina, nos nutre, e vivemos de forma real o inventado, onde termina o limite do real é... ah, eu andei muitas ruas com o coração na mãos, vivendo aquilo que criei mas também o outro proporcionou. vejo aos poucos que o amor se pode criar, e moldar, e nutrir. e inventando o amor assim escapo de inventá-lo acreditando na sua existência magna, como se fosse um raio que caindo na minha cabeça, me derruba. separado de mim.
para a seca, que a resposta sejam as torrentes.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Um outro conto (VII)
onde o mesmo vento levanta saia e reparte montes, digo: levantou um pó e corri atrás, igual... uma criança especial me seguiria e entenderia o porquê onde outros olhariam sem compreensão. eu sigo o pó da estrada, e o medo de nuvens, meteoros, cacoetes, etc.
reparo no falso trigo e digo: é tão belo quanto. o falso trigo deveria se chamar algo novo: lúcigo. e os pássaros dependurados no lúcigo ficam bicando sementes, e seus detalhes minúsculos (uma mancha vermelha no peito como muitos de nós) excitam, cativam, beiram a loucura da vida. peço até pra não morrer mas morrer deve ser uma delícia muito única. quando se vai a Tokio sabendo que nunca voltará por que é longe e caro, e ver a baía e os prédios como a última primeira vez, um doce mordido uma única chance e pum passou.
de correr atrás do pó vi então o lúcigo o pássaro e a rua descambando em gente. tinha vento e vida vibrando, mas eu não ligo mais. a água nas valetas corre, e então não é paz mas é coisa concreta. as coisas dos homens se encontram com ela e escorrem furta-águas abaixo, presidentes e congressos. gritos se somam, onde marcham em muralhas mulheres e párias, e a gente pinta paredes de vermelho, dos olhos.
passo por vielas
pixei poemas
que pássaros bicaram
pixei sonetos
li haikais
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Eu andei na rua e me gritaram
sra H, minha próxima mensagem pra você vai começar assim: hoje eu explodi meu cu de tanta vontade de cair num bueiro. não mentira, vai começar assim:
olá sra H., hoje eu me olhei no espelho e tive uma vontade de escrever um poeminha sabe? e a vida anda tão assim assim assado assado, ui ui ui. que conflito que dor que linda a vida. vamos ser felizes né? compre um carrinho mas cuidado com o planeta, carinho no cu é uma delícia, eu mereço quem me ama mas desde que seja poliamor: por que né, a geração dos meus pais etc?
que caralho, né sra H, hoje eu quero me pulverizar em graça divina e o que eu consigo? outra rachadura, um vinco seco que dói dentro. levanto, ando, me lavo, como se não fosse tudo grave, tudo por um triz. verdade, sra H: eu bebo, e caio, e danço, como se nada fosse grave também - mas é preciso distrair-se, performar. se eu fosse a verdade, seria | olá sra H. na almofada, sob o sol, eu ouvi o dia correr por mim. minha pele se excita. um pássaro pousou em mim. os anos passaram | mas não é. eu tenho digitais sobre o corpo, e os dedos deixaram marcas de dinheiro roubado. eu acuso quem me toca. e quem me diz: vamo brincá de esquecer?
eu uso celular em postos de gasolina só pra poder brincar de perigo. eu andei na rua e gritaram: vai viado. um elogio à loucura.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Fonte carmim em campo violeta
sabe o que me assusta? a mensagem violenta, o poeta terno antes. hoje estamos violeta, onde deus planejou carmim. campos sedosos de carne rubra, cobertos _ são tempos difíceis, sra H, as pessoas roubaram dos bichos os olhos opacos. nós preferimos ver nada. mas e eu que vi, em terra de cego, sou ...
pois fizeram assim, jogam aos cães ossos, e o poeta falou de amor lambendo seu ossinho. também as crianças. mas o quê vi, sra H, não tem meio termo. é coisa sangrenta, que sai dos poros, e não fica tenra - vira terra - e se envolve profunda lá embaixo. pra que eu não saiba dizer o que eu nunca soube. nem com os ossinhos.
_ eu que vi, sou medusa no espelho. petrifiquei não de susto nem magia, mas pela intriga (não me reconheci). não posso ser rei. enlouqueci.
quando no desespero, me apaixono ainda mais pelo que vejo. quero despir quem eu sou daquilo que me envolve e me apresentar não como vim ao mundo - mas como era antes, de sê-lo. o que vi estancaria, portanto. talvez até brilhassem os olhos opacos, lagos secos. meu medo é não me entenderem, eu disse sra H _ meu medo é ficar em silêncio sozinho, eu disse, sra H. o que eu vi não é do Mundo, é desse mundo apenas. antes eu via apenas os ossos que me jogavam, e falava: amo. um cu hoje eu disse, sra H. à merda com tudo isso, eu disse, sra H. quero que me digam que morri, e na água virei novo ser, como um batismo: porém que me retirem o nome.
sob este nome que me deram, há o corpo que não compreendo. nele procuro o estado de sítio. hão de encontrar, conquistadores, à exemplo dos bérberes no deserto: fontes carmim em campos violeta.
sob este nome que me deram, há o corpo que não compreendo. nele procuro o estado de sítio. hão de encontrar, conquistadores, à exemplo dos bérberes no deserto: fontes carmim em campos violeta.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Penso, logo escrevo
penso, logo não escrevo - pensamento, machadinha do escrever (do meu, dos outros não digo pois não sei). oras, se faço uma pausa, é por quê penso se escrevo bem ou mal, se alguém lê e chora ou ri ou nada: mas isso lá não é comigo, escreve que é tua sina escritor!
e é tanto pra escrever: eu abro as notícias (feed de, que jornal não leio), a tela pisca em desespero e só de bravura desço mais, desço até os infernos de três horas atrás. AINDA MORRO DE CONGRESSO penso eu, e se tem coisa que me cai mal hoje em dia é, sem dúvida, coxinha: dessas banhadas em óleo. dá até pra ensaiar o pensamento - "ô época difícil pra ser brasileiro" - mas aí cê pensa, "e lá teve época fácil pra brasileiro?" sei lá, sei lá.
não bastasse a bateção de panela no duplex - e a faculdade? que faculdade o que ô! tô vendo ainda, resolvi viver, meu gap year, a vida é curta, tô trabalhando, vou viajar... esperar até os 50, quem sabe lá eu descubro que rumo tomar. AH! quem dera eu fosse um Magalhães descobridor de mares - estou mais para aspirante a turista em Orlando. não há mais mares a desbravar. não há ilhas a descobrir. toma teu chapéu de mickey filho, segue na fila.
e aqueles planos de se mudar pro japão hein? precisava de matemática. tocar piano? muito dedo. fiquei de escrever mesmo. quem foi que disse que bom escritor não vive grandes aventuras? avisem-me, procurarei matá-lx. verdade verdadeira, até pro amor a coisa anda na base do impeachment. quem destituiu aquele romântico inveterado e botou este ditador sonolento no poder? baixou o decreto da solidão compulsória. no fundo quer legalizar aquelas mensagens fofas, mas até agora de abertura democrática só anistiar aquelas músicas que deixam borocoxô.
serão tudo trevas? sei lá, sei lá. escrevo por que preciso. se penso, não escrevo. escrever é minha arma - e há muito o que escrever.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
- (2)
talvez por tanto escavar o que é o "o quê" do "quem", os sentimentos ficam assustados e saem correndo. hoje, eu, sem nome nem nada, não sei sentir coisa alguma. ou é o abismo, ou é nada (na-di-ca). claro que é preciso manter a pose, um pouco de sorriso e afetação são saudáveis e bem quistos (ui), mas atrás do palco estamos todos fumando e esperando... o sinal... o terceiro ato... ponteando a espera com alguma loucura, uma noite perdida, o sono em excesso, distrações visuais, uma vela no templo do corpo. há que se crer muito no próprio nome para sentir qualquer coisa. em cima desse sólido chão do quem se é construir uma torre, um castelo ou uma fábula. no entanto eu ficaria em silêncio por milênios por não ter nada a dizer senão contar o que vejo.
pode-se sentir abaixo da superfície? sim. coisas demasiado humanas, como a incompreensão. e um tédio enorme, uma calma nervosa. chegam até o fundo as barbáries humanas, e o que liga a superfície ao fundo é uma pontada triste. talvez os homens acreditem demais no que são, acumulando riqueza, fama e poder. eu prefiro ficar um milênio em silêncio. não posso fazer muito então escrevo o que vejo e finjo esquecer.
-
já não é preciso falar de lamentos inventados. o amor é isso: cresce, frutifica, morre - e esperaremos morte e ressurreição como qualquer sábado de missa, até nascer outro amor. por isso pouco importa, ao mundo e aos que tem dúvida, ouvir falar de amor. há outras perguntas esquecidas, deixadas para trás no turbilhão do fascínio romântico que nos leva cada vez mais para baixo: o que é ter um nome, se eu não sou um nome?
meu nome é uma cortina para o que sou. atrás, o espetáculo corre solto, manso ou frio. mais uma vez, eis o fio fino da lâmina do romântico: o que se ama, o nome ou o estar? quem é aquele que por trás do nome sente-se amado? o outro é sempre um mistério crescente - quanto mais próximo, maior e mais profundo. quando se fala ao outro, fala-se ao outro ou a si próprio refletido no outro? será o outro o interlocutor impossível, sempre distante demais daquilo que eu quero dizer, sempre incapaz da compreensão plena? o interlocutor pleno vive dentro de nós (?), e o chamamos deus pois ele nos ouve e dá a resposta plena e completa do tempo: o silêncio.
vive aí o espetáculo atrás do nome, o monólogo (?) ininterrupto de nós (eu) para o lago profundo dentro daquilo que somos (o não-eu, o reflexo do que dizemos que nos volta alterado e imperfeito). até onde somos alguém, muitos, dois, outros, o outro?
ao redor flutuam as perguntas esquecidas. no fluxo dos lamentos inventados de amor, é preciso não chegar onde ele deságua (da boca pra fora), mas voltar à nascente e descobrir onde ele se origina. nada disso é sobre o amar. estamos falando, detrás das cortinas, de solidão.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
O que está, é
seco com os olhos o pulsar da barra. ela me aguarda. mas hoje, hoje,
hoje eu não tenho o que escrever - eu minto.
ela prossegue no aguardo, como quem sabe e nem desconfiaria do contrário. me deixe estar hoje,
pelo menos
'nem pense' - e pulsa
'eu não só sei como vejo'
'você anda lendo aqueles velhos textos, vendo fotos antigas, eu vejo você
caçando percevejos
em arcas perdidas. revolvendo amores frios pra ver se encontra algum arrepio, um postal, selos'
'leia os clássicos' 'coma menos' 'diga apenas diga, escreva com o estômago pois as mãos estão cansadas'
eu escrevo com o estômago. o cérebro pensa, a mão digita, mas quem escreve é a víscera crua mesmo, assim sem repulsa ou decoro. mágica, ela tira a fita comprida colorida e infinita que parecia não estar lá - um coelho, uma moeda - e de repente sai uma festa que deu errado um copo de whiskey cerveja vodka ou percevejos em arcas perdidas. foto que eu guardei (virtual e cruelmente). um dia de chuva e eu na marquise olhando o teto cair e a santa cecília pedir: menos, menos, calma que a gente é fraca e o santo é pouco... a parte triste é o que sai da gente não poder ser lido por mais ninguém, ninguém entende o que quer ser dito nem o que se tentava dizer. eu não quero mais dizer nada, bote meu estômago para dormir, eu quero falar em cinema, imagens dispersas de dias que acabaram e não falam mais nada. o passado está morto, o que está é, e o que sobra se faz agora.
'eu sei'
'pode dormir'
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Insistência
eu estava naquelas ruas pequenas que acabam no vale, que dão na República, que nunca acabam; do céu pintado caia aquela chuva insistente mas trapaceira - não molho nem paro. andei até a Santa Ifigênia com aquela insistência: tentar esquecer é insistir em lembrar.
ainda na Sé, eu pensava - o que serei se esquecer? sem a tragédia, sobra a dissonância soando errada numa peça sem harmonia. eu fico só e meu nome.
lembro constantemente da memória que preciso apagar. não como efeito colateral, ou impossibilidade, ou paradoxo; é o objetivo escondido nas frestas. fingimos querer esquecer a modo de nos lembrarmos constantemente - eu piso no vazio com a surpresa da obviedade.
viro a Nothmann. almoço. sem onde, volto.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Perguntar
"no sonho, era assim: você estava entre nós. você tinha 14 anos. você era amável e doce teimoso, me gelando a espinha. insuportável leveza, e a culpa - o juri te condenará pela eternidade pela leveza pintada a mão."
ser é leve ou pesado? eu estava prester a dizer que dói viver, mas então me dou conta que não sei. para se afirmar algo é preciso a confirmação, a nota de rodapé necessária, o asterisco. é necessário abrir o sapo das coisas e ver um coraçãozinho batendo frágil, caberia num relógio de pulso e afirmaria que sim: dói a vida. eu não abri o sapo então não sei, não direi que dói, pergunto to whom it may concern: dói viver? é leve viver? é pesado viver no fundo? no fundo dói? e na superfície? e na pele? e viver na pele? e viver fora dela?
você ora antes de dormir? como você pensa deus? ao redor da sua boca vivem criaturas fantásticas que não pensam em nada, elas nadam, nadam, nadam... no café pela manhã. e então nos apoios do metrô, e nos corrimões, então na sua mesa, nas mãos dos colegas, e as criaturas rapidamente se trocam e se conhecem e partem. elas liquidamente trocam amor e ódio e nada, enquanto você dá o gole no copo de outra pessoa. pensou nisso? o que é conhecer o obscuro de nossos pensamentos? quando que eu fecho os olhos e sonho: você estava entre nós, 14 anos, amável e teimoso (eu não te conheci com 14 anos, o que torna o sonho mais obscuro). olhando de cima veja, tal como as criaturas ao redor dos nossos lábios nós somos, logo mortos e portanto infinitos no nosso existir. tudo nos ignora, e ignoramos quase todo o resto, mesmo assim... a persistência do pequeno mistério das coisas: ser é leve ou pesado? é propósito, despropósito, ou propósito em não ser absolutamente nada, desprovido de causa e destino? rapidamente trocamos impressões superficiais de existir e logo nos partimos em vários - melhor buscar alívio ao lado - queremos nos deletar, nos suprimir, nos resetar, porém impossível é pois aí estamos no pequeno pulsar, mistério de ser, pergunta: leve ou pesado? incrível essa leveza, não acredito e nego, eu sei cada peso que me puxa para baixo, baixo onde não sei, mas insisto.
todos puxados para baixo, mas você flutua, e seus pares, e suas danças, e seus pares, tantos outros... por quê alguns afundam tanto? alguns não suportam e perdem todo o ar, a consciência, tomam pílulas e perecem, acordarão na praia do alvorecer, num outro tempo se é que existe. você não tomará pílulas, tomando drinks de normatidão e leveza. dói ser leve também? e pela noite, como fica? contarei: pela noite é mais difícil. meu sono é profundo, antes eu tinha medo de dormir até. podia até ter a pachorra de pensar em cada uma das criaturas vivendo no meu corpo, e no que viviam e por quê viviam elas, e vinha o medo - pensei já também em você. você nada ao redor dos meus sonhos, nada nada, pensando no infinito vazio e rapidamente se desfazendo. mas a noite como será teu sono? pesado ou leve? como se pesa o sono, e o sonho? é por kilo?
no final do corredor, a morte vara e ronda. eis-te. é leve ou pesa? ou ignora? eu queria, acima de tudo, te contar como eu não ignoro a morte, ela vem e conversa comigo. talvez, assim, eu fosse a ti objeto de amor - uma fantasia rara, beirando a seriedade mas ainda sim apenas pobre. pois, de fato, assim como as criaturinhas nas nossas unhas e mucosas não queremos amor, queremos permanecer, queremos perpetuar, queremos nos reproduzir em ideias e lembranças e estigmas. ninguém há de querer amor de ninguém, pois amor é a mão lançada -
espera. para afirmar preciso do asterisco, do cientista. não sei mais portanto e pergunto: amar é a mão lançado ao outro? queremos amor? queremos furor e suor e cansarmos? dói querer?
dói perguntar
domingo, 21 de setembro de 2014
prólogo
cheia de intenção a mão toca o vazio - graciosa. uma bailarina sem plateia, diriam os poetas, sem propósito porém ansiosa; e cega. não mantém a forma fixa de estar segurando algo? um papel, um lápis, uma mão qualquer... no repouso retraída de lembrança, trocada em átomos com tudo que há - o teclado do computador, a maçã, o dinheiro. biblioteca do corpo, conhecedora da forma. e essa forma fixa persistente, esse átomo que ficou ali sobrando, tanta sujeira, lama, restos, corrimão; conhecedora do impuro.
a direita segura a faca, a esquerda a gaze - justiceira e amparo.
mas no momento ela estava parada no seu seio esquerdo, rígida e lúcida, mas não era ela, era o medo, era eu. medo e lúcida, rígida e esquerda, você pode me descrever para seus amigos no meio tempo em que eu fui ao banheiro e voltei, nos sussurros, nos risos - eu preferia levar um tapa. talvez você o fez e eu não me atentei, o que importa era a mão parada de musa, mármore, minha no teu logo após enquanto ninguém olhava. duas musas, mudas, se tocando pela primeira vez na imobilidade do mármore.
quem viu esta cena impressionista fui eu apenas, frequentadora de artes plásticas diversas e sonhadora infinita. no seu romance secreto, meu quadro fugaz é uma nota de rodapé - eu, lamento. aí a dor maior de existir: ser pequeno ao outro, ser desconhecido do outro ou não ser nada - eternamente - nada além de uma sombra. eu estava triste e nem estava ali. minha morte está cravada nesse eterno/nada/alheio - aí eu mergulho nesse lamento de existir e viver e chorar e etc etc etc. move-me no vazio o ambíguo, o incerto, o vacilo, e sem isso (ou sem você.s) não haveria o combustível primórdio de movimento. pois, desde o início, eu era reticência e precisava me preencher.
suas mãos me preencheram muito bem - molhada. por fora. mas era o limite e era tudo. eu rescendia ao rio que corria em mim, mesmo que estátua. "quando você chega?" era minha pergunta boiando no rio e eu molhadíssima, eu violenta sempre sempre sempre imunda e rápida, ainda que no recato. "não quero dedo" mas me arrependi depois. cheia de intenção ela toca o vazio, e eu sinto - ela é bailarina.
um papel, um tecido, uma mão qualquer... meu rio desemboca no retrato gasto dum passado sem cor, inválido, pouco muito pouco. minha emboca num gesto frívolo - e se perde - nos sedimentos: forma fixa, persistente, areia que fica ali sobrada, tanta sujeira, lama, restos - na boca do amar.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Um outro conto (VI)
de "uma carta de ensinamentos e percepções para um pássaro"
"...
pois, afinal, quem lhe deu essa impressão de leveza?
você é pássaro segundo, bicho depressa. não se atente aos detalhes e verá, saberá, como dever ser estar só e caído de asa quebrada. olha a vida na relva e repara - repara o orvalho - repara o falso trigo. eis que talvez na tua vida depressa de bicho-voador não há nada que ver a relva e seus mistérios, mas ai, que dor ! aqui a vida vibra também, tem o vento...
eu nem sei explicar
teria você que vir e ver
a água pela manhã, que linda
num mundo tão difícil
eu até te vejo, pássaro
te vejo e te quero
na beleza dos detalhes.
..."
domingo, 20 de julho de 2014
Se meu corpo
se meu corpo não me pertence, como posso com as mãos tentar tomar um outro - intransigente, raivoso? egoísta - como os homens em princípio e eternidade. antes de levantar a voz já me perdoe: faremos com as memórias o que faríamos da argila - moldar, transformar, suprimir o sólido e criar o oco.
então guardaremos nelas aquilo que nos parecer melhor.
preciso aprender com o que toquei. aos amantes as alegorias são fantasias práticas, não pedras de erguer casas. dada a hora, fez-se o tempo de aprender a regra e abandonar a sede das mãos. diante dos grandes prédios ser brutalista e concreto, direto ao coração como a ponta da bala. pois nada é meu. tudo que é possível é a ponte direta, a palavra nua. o resto é máscara para a solidão.
mas não é a solidão completa também nua e próxima? há tanto é buraco negro. escrita crassa. comer da solidão é mais humano. mata a sede, afoita. não nega a falta de posse, mas imerge no desdobramento de ser, em ondas pequenas quebradas, múltiplas. então jamais tentarei tomar de assalto qualquer outro universo - lançarei a solidão ao ar e, onda de rádio, ecoará no espaço infinito.
***
eis que, entre solidão e posse, existem as coisas do ar e dos olhos. o dia que nasceu virgem e prossegue dourado - meu? posso chamar de meu o que me contêm? casas, cidade, rua, bar - meu? aniversário, quarto, pensamento - meus? não seria eu das coisas, tão oposto?
pertence à mim o corpo ou ao corpo pertenço eu?
na dúvida eu abri as portas e fugi pelo dia, tão de ninguém.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Nota sobre escrever
procuro-me, não darão recompensas: seja feliz por completar alguém dividido ao meio.
um menino fez as palavras do barro. Deus não saberia as palavras. Deus não existe por não possuir poesia. só é divino o que compreende a poesia e Deus seria sólido, grave, e repleto de anjos e obras. Deus seria sem perdão mesmo perdoando, indelicado mesmo na ternura, rude ainda que dulcíssimo.
existe divindade na ordenação das frases. oração, assim chamam, coisa que pede, clama, abençoa.
escrever é um ofício horrível, horror, terror. quando vem a barca do medo e me estende uma mão: vem navegar entre palavras. não as quero mais. quero apenas voar no céu, percorrer o lugar comum de viver e morrer muito calmamente como um ser homem deseja desde que nasce.
porém me foi proibido recusar o convite desse barqueiro - vem, ele diz - e eu vou. se eu não escrever, definho. apenas escrevendo me percebo, de outra forma minha outra margem me fita distante e sinaliza, esboça uma explicação que mal vejo, ouço... é escrevendo que registro essa conexão, neste barco trafego trazendo mensagens de cá e lá, entre eu aqui e eu na margem outra.
ninguém me conhece por que não sei me fazer como sou.
vivo tudo isso que escrevo, tudo quanto mais difícil.
se eu pudesse, não escreveria jamais. quero ser rebatizado sob o nome de guillaume, nascido sob um signo prático: capricórnio. nasceria em qualquer lugar, onde ninguém escreveria em papel, sim em areia, para que pela manhã o mar ou o vento tivessem apagado tudo. brincaria de inventar paisagens. doeria apenas não ter conhecido quem eu tanto amo, mas há dores que nunca se apagam, por mais fortes que sejam o mar ou o vento.
morreria analfabeto.
morreria analfabeto.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Tentativa de contar uma história
vamos contar agora uma história simples, sem palavras gordinhas ou destiladas: era uma vez... ou não era uma? eram duas? eu não sei ou não me lembro bem...
"o vento estava recheado de palavras". que lugar comum, falar do vento... só eu sei o que quero dizer com isso - no entanto, houve um vento essa tarde, cheio de garoa e recheado de poemas não-escritos, eu soprava pra calçada procurando o fio da meada e só encontrava ladrilhos. não me preocupei por que eu também não precisava me explicar, apenas seguir.
olha: minha história assim se complicando... quero atingir a simplicidade para poder me entender. vamos dizer então que era assim: não tinha mais vez, eram dois e um só (queria pular no céu). mas como pular no céu se estamos caminhando na superfície do mundo? você se lembra: o céu também está no reflexo dos olhos, e eu posso pular neles, mergulhar como mergulho na água fria do atlântico sul, meu querido e amado atlântico sul.
talvez eu mal saiba contar histórias. às vezes eu admiro os ladrilhos da calçada e penso no atlântico sul e nos seus olhos. e nada disso faz mais sentido quanto minha cabeça pretende querer inventar, e estou me contentando em não fazer sentido nunca... talvez por que isso há de me fazer contente de fato.
era pra contar uma história? lá vai - era uma vez alguém (não eu) caminhando por aí ao lado de alguém (não você). pelas calçadas por aí, esse alguém ficou olhando os ladrilhos do chão pensando em mares do sul, o único que de fato conhecia. assim como o mar, ladrilhos tem um brilho aquoso, aquele dos olhos... dá uma desejo de mergulhar lá dentro (dos seus olhos). talvez lá, uma ilha ? e quando você olhar o céu, mergulhar no céu. pode ser que esse alguém nunca chegue de tanto olhar pras calçadas por aí, pensando em mares do sul... não faz mal nunca chegar. não importa. importa é caminhar, é seguir em frente, é ficar assim, mergulhar no silêncio e beber dele.
***
caminhando por aí talvez eu encontre comigo bebendo uma cerveja e falando de intermitências... com o olhar vago de alguém que entende estrelas e mares. por enquanto, no entanto, estarei aqui, escrevendo as pistas que deixo para o futuro me decifrar.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Sobre mim
hoje, por exemplo, perdi meu nome. se me chamassem por Deise eu responderia pois esse é o nome gravado nos vidros do trem; é apenas a ideia de alguém que quis sobrepujar a vida e, para isso, desistiu da alma; permanece gravado viajando na limitada rota infinita viagem. eu poderia amar sem pedir algo em troca como Deise, pois minha humanidade seria estática, ilusória - eu seria, tão maior, a ideia da realidade. alguém não me explicaria como condição ou estado; senão como efeito de ação (gravaram-me em vidro e era só).
perdi meu nome e vou, aos poucos, decantando as perguntas - já não me respondo por elas. alguém pode vir e tomar meu corpo pois ele é apenas impressão no correr do tempo - não é fato limitado entre adjetivações - é minha existência permeada de ignorâncias sobre nascer e morrer.
sábado, 13 de julho de 2013
Sobre ela
ela vai escavando aos poucos a nuvem sobre o seus pés até encontrar uma saída para o fundo do céu. uma saída para fora daquilo que compreende sua percepção de mim e do mundo. ninguém pode acalmar um corpo que está perdido entre cores quentes e divisas: aqui se está dentro e logo ali, abismo. ela se esconde de você por não saber estar certa ou morta - para essas dúvidas resta um choro vadio, aquele desespero de acordar e permanecer em movimento... eu a encaro, separado do corpo.
acalanto-a. sussurro-a. escrevo-a. ela se cobre de palavras irreais e volta assustada de ter se formado porém calma, mais calma. também espero notícias de uma alma liberta, me dê a mão e sublime aos poucos. entretanto ela vai acordar por você e, no corredor, comerá a escuridão com as mãos sujas de sonhos ruins. incerta, sempre incerta, canto baixinho e a banho em prosas, poemas a vestem. um dia passado na janela observando o mundo, quieta, ela pergunta certo momento para mim qual é meu nome: eu digo o teu. nos encaramos perplexos, impedidos de desadormecer.
terça-feira, 2 de julho de 2013
Se eu pudesse, queimaria tudo o que escrevo
(...) descontinuo essa frase maior e enterneço: na acolhida ela vai se romper em orações e preces cairão pelo chão como frutos. enquanto for preciso partir, as palavras também se romperão, sílabas dispersas de balbuciares... seria mais simples não discursar, mas o que eu digo não tem à quem; enquanto o receptor se confunde com as mobílias confesso quadros e criados-mudos.
agora também vão nascendo vírgulas e espaços pelos vasos do corpo-coração, nas paredes do quarto e na sombra daquele corpo invólucro. mas não é condenável, minha frase maior apenas se prolonga pelo humano e toca a irrealidade... o inventado, vivo, sufoca. num aquário violento, o peixe verbo se afoga, violetas nos vasos e no divã, corpo.
a irrealidade é tal: não há quadro nem divã nem corpo, o peixou estou e o aquário é a retina. violeta é a sombra noturna que apagou as formas do amanhecer e entregou o dia nublado. não fosse necessário discursar, porém destituir de signos o discurso, entregar apenas a matéria que nunca valeu de nada ainda que fosse tudo que houvesse. até hoje a irrealidade apenas me descobriu em lados não nascidos: natimortos: abortados.
de todas as formas, amo o infinito por não ser forma; dos sonos, os despertos por estarem em fuga; dos sons o silêncio, pela ausência; dos fantasmas os que vivem, pela incompletude. dos amores, nenhum: são engodos da gente pois há algo maior que eles. eu sinto silêncios ao invés - é tudo o que possuo, quando meu corpo em outro se desfaz e desatam os nós da existência; um abandono de mim em mortes pequenas.
se eu pudesse, queimaria tudo o que escrevo.
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