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sábado, 24 de fevereiro de 2018

24-02

o motorista do ônibus dirige o ônibus. não há ar condicionado. o motorista coberto em suor ri dos passageiros cobertos em suor. atire-me aos leões, mas venha comigo (banhado em suor); o verão não é pra principiantes. o inverno não é pros fracos. às quatro da manhã as máquinas asfaltavam a rua da minha casa. as obras são pra quem dorme de protetor auricular; o prefeito então apareceu pela manhã num evento. os discursos políticos são pra quem usa protetores auriculares (eu não estava lá). os fascistas antigamente usavam uniformes; hoje em dia eles vão à barbearia e tomam café da maquininha, compram roupa no shopping e riem de todos nós. nem todos são conservadores - tenho a impressão que os fascistas na verdade não gostam do que tem nome. o que tem nome se toca e vê, e dói. 
vamos lá: num ônibus. um homem roça o pau em mim e fica duro. eu roço o braço no pau dele. ninguém fala nada, olho pra cima, pisco o olho. pego no pau dele. ele desce no ponto eu desço atrás. aí na próxima esquina ele me mete um soco e vai embora. e se goza todo. eu banhado em sangue. ele todo gozado. alguém lê isso, e fica duro. 
nada disso aconteceu com exceção da última frase. só suponho.
nos anos 2000 ninguém mais lia poesia; agora ninguém mais lê prosa também mas há muitos livros de fantasia nas estantes. no ônibus (para o inferno) a mulher da frente assistia um vídeo evangélico que falava assim (etc) o homem pediu que deus falasse com ele e deus mandou um pássaro e o homem não ouviu, um raio não ouviu, um peido (etc) aí no fim o homem a) se converteu b) se fudeu. ela respondeu à amiga que mandou o vídeo: que lindoooooo. eu pedi a deus ARRUME O AR CONDICIONADO mas deus não ouviu e cheguei no ponto. em ponto morto.
as máquinas de asfalto continuavam soltas.
vi um vídeo (!) de um bot que tinha escrito um livro da série Harry Potter. a sintaxe era dez; semântica, nenhuma. ri muito. uns moleques ingleses liam o texto. vi outros vídeos e descobri que eles faziam piadas racistas (eram todos homens brancos). às vezes falavam mal dos commies. fechei o computador com desgosto. os fascistas não levam o que é bobo à sério - o bobo é seriíssimo. o bobo renomeia as coisas, traz à tona. então é aí que, vendo, a gente dói.
bom sábado.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Felicidade-Shopping


 que coisa engraçada a gente é quando se descreve. principalmente na internet, nos aplicativos, currículos íntimos... há sempre algo sobre felicidade, paz, boas energias e umas calhordices assim.
 fiquei cansadinho de tanto vocabulário positivo, alegre. me veio uma frase: eu não confio em gente feliz, mas não sei quem disse. ou o ser é cego ou é canalha mesmo - olha esse mundo aí - ser tranquilo e feliz num carro indo prum shopping, por exemplo. do lado de uma favela perto dum córrego poluído no ar poluído. aí um menino pede no sinal. o sinal abre. e aí várias filas, do estacionamento à loja de porcarias, passando pelo restaurante de porcarias.
 você sai, um homem dorme na grama em frente ao shopping.
 bom, isso tudo ainda dá pra relevar, né mesmo? mas a coisa piora por que tem lá dentro da gente também, uma inquietação. uma curiosidade das coisas, um medo profundo de dormir. de repente um carro freia em cima de você na rua, passa tão perto e a ferida (talvez até mesmo a morte) ficaram tão próximas, a gente pensa... olha eu podia morrer né. e aí a gente fica meio morto ali mesmo. mais simples talvez: entre as luzes da cidade as estrelas nos chocam com seus mistérios racionais e sua vastidão. é impossível ser feliz assim diante dos absurdos do casual, do imprevisível, do vasto. a incompreensão come tudo. 
 mas nem todo mundo pensa nisso, é verdade. e, oras, ninguém realmente é obrigado a pensar rio, homem, estrela, morte e sinal. talvez se pensassem, a maioria dos homens ficariam paralisados demais, deprimidos demais. talvez mudassem o mundo. não sei. mas que a deusa me livre de gente assim. 
 entre a felicidade-shopping e a esfinge, me jogarei eternamente nos enigmas insensatos que em nada dão.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Catedrais, Turistas



 rajadas violetas, quebram-se, em vitrais. altas imagens, santos, altar central. a catedral de santiago do chile é um lugar muito triste, esgota a paciência. a catedral da sé por sua vez é triste mas é brasileira, e nisso feliz. entrar em catedrais, igrejas, um passatempo tão infeliz. a igreja anglicana de Valparaíso sem cruz sem adorno lembra uma beata seca, pura, austera. não há vitrais, a água-luz esparrama líquida, imagino - não entrei nela. imagino também o silêncio do edifício vazio, a saudade dos muros de ingleses chilenos que são pó na terra hoje, asco dos turistas todos. os turistas causam um certo nojo, mesmo aqui no Brasil onde o estrangeiro é tão venerado. há algo obsceno no turista, cria uma inveja estéril deixando a gente toda no vazio. essa pessoa sem casa, sem mundo, essa pessoa chegada de longe sem raiz, observando com olhos fluídos o que corre pelos olhos.
 essa pessoa sem casa que está pura diante do desconhecido. talvez não queria nem entender o que se apresenta, absorve vitrais águas-luz estilhaços multicor sem afinco, sem pressa. (há turistas e turistas, refiro-me aqui aos viajantes portanto, aqueles cujo entretenimento é tudo que se lhes alcança os olhos, toda realidade nova vibrante do exótico não pertencer). a catedral é pela primeira vez compreendida em sua simplicidade - prédio de culto religioso adornado - extraído de seu contexto talvez pronto para ser só edifício. imagina esse viajante alguém de outra cultura não-cristã, até mesmo: alguém que desconheça o significado de igreja. estar ali onde não se conhece é desconhecer significados prontos, estar mais próximo da coisa simples da coisa. 
 por não me ser familiar, amo aquilo que vi por completo, pois vi sem saber o que era antes e sem anteceder seu futuro. aceitei seu presente como dádiva e abracei na memória a passagem por tais vielas escadarias ruas. 
 seremos também templos? cheios de dogmas, eucaristias e sacramentos, mas vazios tão vazios durante as semanas, adornados, cercados por vitrais. a luz entra também na gente se estilhaça. me perdoe o que é familiar mas, tão cheios de passado, tão sedentos de futuro, se perdem no que sou e me desconhecem. de repente uma visita estrangeira me assusta me grita me exaspera - quem abre as portas assim, não reverencia os santos, muda flores de lugar? dessacralizado somos não templos, não edifícios, não gente não nada, oh entidades... somos aquela coisa prima, aquilo que vê o espelho e murmura um grito de prazer intenso: sou; portanto, vê-me e aceita, comunga comigo esse medo de saber.
 visita estrangeira, conta pra mim este mistério em que vivo!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O fascismo senta ao lado


 às vezes, por acaso, a gente se senta à mesa com o proto-fascismo ao nosso lado. fiquei com a impressão do encontro no peito e me vi pensando.

 primeiro, ele defende o estado mínimo, o livre mercado e os governos liberais (guardem isso na memória), pois seus interesses são: a facilidade no consumo, pois para ele  não há restrições ao consumo devido ao seu poder de compra, e, se houverem, devem ser abolidas. a eliminação dos impostos (a diminuição seria o suficiente?), pois além de uma restrição ao consumo servem como manutenção do estado (por ele dito) paternalista. ele não enxerga, por exemplo, que metade do orçamento nacional paga juros da dívida aos bancos (pai dos bancos). ele não enxerga a necessidade da manutenção de serviços públicos, pois ele não faz uso tampouco reconhece a necessidade de parte da população que faz uso dos mesmos. ele diz que o estado é ineficiente, pois os serviços são de baixa qualidade, porém não vê que o estado (enquanto aparelhamento da burguesia para proteção dos interesses de si própria) não tem por quê melhorar esses serviços: seu objetivo é amparar o mesmo mercado que ele louva, não garantir serviços de qualidade, que acabam sendo usados como moeda de troca e compra de votos entre o povo (visualize qualquer político inaugurando hospitais em épocas de eleição). hospital esse mesmo (ou metrô, trem, escola, etc etc) que foi construído por grandes companhias multinacionais da construção civil que ganharam muito dinheiro em licitações (em sua maioria) suspeitas.
 ele defende a privatização de tudo que é do estado crendo na maior eficiência destes, sem ver que, no entanto, a lógica de linha de produção precariza ainda mais esses serviços (diagnósticos em cinco minutos, educação exclusiva para aprovação em testes, materiais de baixo custo, flexibilização e terceirização do trabalho sem garantia de direitos, ad infinitum). em tempo: os serviços que ele usufruirá serão de alta qualidade, pois ele poderá pagar por eles. o fator preço impede parte da população de usufruir das mesmas qualidades. mas ele não se importa, pois para ele "quem não pode, não merece".
 sua visão é meritocrática pois ele ignora o contexto social e histórico no qual vive: sua referência é o trabalho dos pais/avós (ignorando qualquer privilégio - aliás, ele não reconhece oportunidades como privilégios) e as exceções (mendigos que passam em concursos, pessoas que caminham dezenas de quilômetros para estudar, como se o sacrifício extremo fosse correto. ele caminharia 20km para fazer uma graduação? ele dirá que sim, pois dificilmente viveu ou entende de situações extremas). ele não conhece o operário comum, e deprecia o que vê - crê que as classes mais baixas não gostam do trabalho pois, se gostassem e fossem esforçadas, estariam melhor. oras - logicamente ele não passa duas horas no transporte público, ou sofreu racismo, ou foi impedido de continuar seus estudos por ter passado fome, não sofre com sexismo, objetificação, abuso sexual, criminalidade alta, repressão policial, preconceitos em outros formatos (gênero, linguístico, regional, moradia, cabelo, roupa, etc) - condições de trabalho precárias, negação de direitos, exposição a situações de risco físico/moral. as oportunidades sempre lhe aparecem sem obstáculos, pois ele é opressor e por isso é aceito dentro dum sistema de opressão. por ser aceito, crê que todos terão as mesmas oportunidades que ele.
  ele é cego para todas as formas de opressão, devido à esse privilégio. deprecia o feminismo, pois para ele o feminismo é diferente da luta pela igualdade de gêneros (!!!), já que o feminismo prega o ódio contra os homens (!!!!!). ele cria essa cisão feminismo radical/luta genérica por igualdade para diminuir o movimento com poder de transformação da ordem (o feminismo combativo), já que sua proposta de luta por igualdade é nada mais do que uma manutenção da ordem (lutemos pelas mulheres, desde que nos termos dos homens, guiado por homens, dentro de um sistema essencialmente sexista, sem alterá-lo). ele é, portanto, conservador (porém liberal no que concerne ao seu bolso, lembra?), e deprecia qualquer movimento de libertação da estrutura da qual ele sobrevive - a luta do povo negro, das mulheres e das minorias sexuais é também a luta de classe.
 para sustentar seu argumento, explora o velho caso do desertor (a ex-feminista, o ex-comunista, o gay conservador), como no caso das exceções. explora-os como se eles ditassem a regra, ignorando a relatividade desses casos solitários, que podem ser aplicados a qualquer ideia de desilusão/fracasso que não invalidam a solidez das ideias, mas atestam a fraqueza do individuo. além da relatividade, ignora os fatores frágeis que criam tais exceções: desequilíbrio emocional, casos montados, busca da fama, deturpação das ideias antes adotadas ou, muito simplesmente, falta de caráter. 
 ele não vê isso pois é cego para o outro. ele é fechado para o questionamento. o diálogo é o questionamento incessante - trocar ideias, compartilhar com o outro é antes de tudo olhar para si próprio e questionar-se. ele não está tampouco aberto ao diálogo consigo, pois perturbar a ordem em que ele próprio vive seria insuportável. 
 ele já é fascista. esperamos que, quando descubra, tenha vergonha de si.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Penso, logo escrevo


 penso, logo não escrevo - pensamento, machadinha do escrever (do meu, dos outros não digo pois não sei). oras, se faço uma pausa, é por quê penso se escrevo bem ou mal, se alguém lê e chora ou ri ou nada: mas isso lá não é comigo, escreve que é tua sina escritor!
 e é tanto pra escrever: eu abro as notícias (feed de, que jornal não leio), a tela pisca em desespero e só de bravura desço mais, desço até os infernos de três horas atrás. AINDA MORRO DE CONGRESSO penso eu, e se tem coisa que me cai mal hoje em dia é, sem dúvida, coxinha: dessas banhadas em óleo. dá até pra ensaiar o pensamento - "ô época difícil pra ser brasileiro" - mas aí cê pensa, "e lá teve época fácil pra brasileiro?" sei lá, sei lá. 
 não bastasse a bateção de panela no duplex - e a faculdade? que faculdade o que ô! tô vendo ainda, resolvi viver, meu gap year, a vida é curta, tô trabalhando, vou viajar... esperar até os 50, quem sabe lá eu descubro que rumo tomar. AH! quem dera eu fosse um Magalhães descobridor de mares - estou mais para aspirante a turista em Orlando. não há mais mares a desbravar. não há ilhas a descobrir. toma teu chapéu de mickey filho, segue na fila.
 e aqueles planos de se mudar pro japão hein? precisava de matemática. tocar piano? muito dedo. fiquei de escrever mesmo. quem foi que disse que bom escritor não vive grandes aventuras? avisem-me, procurarei matá-lx. verdade verdadeira, até pro amor a coisa anda na base do impeachment. quem destituiu aquele romântico inveterado e botou este ditador sonolento no poder? baixou o decreto da solidão compulsória. no fundo quer legalizar aquelas mensagens fofas, mas até agora de abertura democrática só anistiar aquelas músicas que deixam borocoxô.
 serão tudo trevas? sei lá, sei lá. escrevo por que preciso. se penso, não escrevo. escrever é minha arma - e há muito o que escrever.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Por quê você não pode concordar com a homossexualidade


 Eu não concordo com a homossexualidade. Aliás, ninguém deveria.

***


 Sempre que acabo de ler um artigo, leio os comentários abaixo caso existam. À parte da batalha cega de opiniões, alguns chamam a atenção pela sinceridade natural. Reproduzo um, lido logo abaixo de um artigo sobre machismo: " ... E se ela (uma pessoa) procura, todos os dias, fazer bem a todos e se preocupar com o próximo, porém SEM DISCRIMINAR, não concorda com o (sic) homossexualismo?"
 Oras, mas não é mesmo possível concordar com a homossexualidade, minha cara - assim como é impossível também discordar. Como alguém poderia concordar ou não com uma condição inerente à uma pessoa? Fico imaginando se a mocinha tal do comentário debaterá consigo mesma se ela concorda ou discorda da raça negra ou das pessoas com deficiências (sem discriminar, logicamente). 

 Aliás: tratar condições inerentes à uma pessoa como escolha pessoal já é, em grande parte, discriminação. É permitir que se possa "discordar" - convertendo preconceito em uma pretensa opinião, fundamentada em religião, moralismo ou pura e simples ignorância. Parece então mais fácil pintar de opinião a intolerância à reciclar velhos pensamentos; dói mudar, né?

 Também incomoda um pouquinho ver aqueles que, ao contrário da mocinha do comentário, "concordam" com a homossexualidade: sentem-se orgulhosos por terem amigos homossexuais no círculo social, exaltam a liberdade de escolha da sexualidade, se alegram com o aparente exotismo do mundo gay, dos chavões, estereótipos, et cetera. É bom que haja um apoio à aceitação e à tolerância: mas jamais a criação de uma aura de diferença entre homos e héteros. Em comparação, a homossexualidade pode ser aparentemente menos comum - porém é condição sexual de mesmo valor, não sendo nada bom colocá-la num lugar diferente, como uma alternativa à condição sexual "normal", que seria a hétero.

 Mas vem lá mocinha e, hipoteticamente, diz: bom, digamos que você esteja certo. Mas eu posso não aceitar a homossexualidade, e aí? 

 Você pode não aceitar a existência da segunda feira, do seu time adversário, da cor azul e do refrigerante que você não gosta. Sendo essas coisas obviamente tão diferentes da homossexualidade, tem com ela uma coisa em comum com milhares de outras: existem simplesmente, aceite você ou não. Alguns usam, alguns não usam, uns querem outros não. A cara mocinha do comentário não precisa dar um lindo beijo em outra mocinha (entre outras coisas); pode viver tranquilamente com sua sexualidade natural, que, ao que se mostra, é a heterossexualidade. O que é inútil é, de fato, acreditar que se pode aceitar uma coisa que existe naturalmente, como se alguém pudesse não aceitar o evento de um raio: não faz sentido. Menos sentido faria então aceitar o mesmo raio. Ele existe, é natural.

 Fica aí, meu sincero desejo de que a mocinha se dê conta da bobagem que disse. E que ninguém mais, num futuro próximo, concorde ou discorde de uma condição natural, mas apenas viva a sua própria e respeite a do outro - um mundo onde conceitos arcaicos de sexualidade, finalmente, desapareçam.