quarta-feira, 4 de março de 2015
Invada este casulo
invada este casulo
faça dele
morada
troque as plantas
da sacada
espalhe quadros
na sala
eu já não moro aqui
invada este casulo
preencha-o
de madrugada
eu moro logo ali
ao largo
do nada
segunda-feira, 2 de março de 2015
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
- (2)
talvez por tanto escavar o que é o "o quê" do "quem", os sentimentos ficam assustados e saem correndo. hoje, eu, sem nome nem nada, não sei sentir coisa alguma. ou é o abismo, ou é nada (na-di-ca). claro que é preciso manter a pose, um pouco de sorriso e afetação são saudáveis e bem quistos (ui), mas atrás do palco estamos todos fumando e esperando... o sinal... o terceiro ato... ponteando a espera com alguma loucura, uma noite perdida, o sono em excesso, distrações visuais, uma vela no templo do corpo. há que se crer muito no próprio nome para sentir qualquer coisa. em cima desse sólido chão do quem se é construir uma torre, um castelo ou uma fábula. no entanto eu ficaria em silêncio por milênios por não ter nada a dizer senão contar o que vejo.
pode-se sentir abaixo da superfície? sim. coisas demasiado humanas, como a incompreensão. e um tédio enorme, uma calma nervosa. chegam até o fundo as barbáries humanas, e o que liga a superfície ao fundo é uma pontada triste. talvez os homens acreditem demais no que são, acumulando riqueza, fama e poder. eu prefiro ficar um milênio em silêncio. não posso fazer muito então escrevo o que vejo e finjo esquecer.
-
já não é preciso falar de lamentos inventados. o amor é isso: cresce, frutifica, morre - e esperaremos morte e ressurreição como qualquer sábado de missa, até nascer outro amor. por isso pouco importa, ao mundo e aos que tem dúvida, ouvir falar de amor. há outras perguntas esquecidas, deixadas para trás no turbilhão do fascínio romântico que nos leva cada vez mais para baixo: o que é ter um nome, se eu não sou um nome?
meu nome é uma cortina para o que sou. atrás, o espetáculo corre solto, manso ou frio. mais uma vez, eis o fio fino da lâmina do romântico: o que se ama, o nome ou o estar? quem é aquele que por trás do nome sente-se amado? o outro é sempre um mistério crescente - quanto mais próximo, maior e mais profundo. quando se fala ao outro, fala-se ao outro ou a si próprio refletido no outro? será o outro o interlocutor impossível, sempre distante demais daquilo que eu quero dizer, sempre incapaz da compreensão plena? o interlocutor pleno vive dentro de nós (?), e o chamamos deus pois ele nos ouve e dá a resposta plena e completa do tempo: o silêncio.
vive aí o espetáculo atrás do nome, o monólogo (?) ininterrupto de nós (eu) para o lago profundo dentro daquilo que somos (o não-eu, o reflexo do que dizemos que nos volta alterado e imperfeito). até onde somos alguém, muitos, dois, outros, o outro?
ao redor flutuam as perguntas esquecidas. no fluxo dos lamentos inventados de amor, é preciso não chegar onde ele deságua (da boca pra fora), mas voltar à nascente e descobrir onde ele se origina. nada disso é sobre o amar. estamos falando, detrás das cortinas, de solidão.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Sinais II
se no copo
um corpo
cair
se na poça
um corpo
afogar
és tu, cavaleiro
querendo das vírgulas
voltar
és tu: cavaleiro
pela porta da frente
sair
O que está, é
seco com os olhos o pulsar da barra. ela me aguarda. mas hoje, hoje,
hoje eu não tenho o que escrever - eu minto.
ela prossegue no aguardo, como quem sabe e nem desconfiaria do contrário. me deixe estar hoje,
pelo menos
'nem pense' - e pulsa
'eu não só sei como vejo'
'você anda lendo aqueles velhos textos, vendo fotos antigas, eu vejo você
caçando percevejos
em arcas perdidas. revolvendo amores frios pra ver se encontra algum arrepio, um postal, selos'
'leia os clássicos' 'coma menos' 'diga apenas diga, escreva com o estômago pois as mãos estão cansadas'
eu escrevo com o estômago. o cérebro pensa, a mão digita, mas quem escreve é a víscera crua mesmo, assim sem repulsa ou decoro. mágica, ela tira a fita comprida colorida e infinita que parecia não estar lá - um coelho, uma moeda - e de repente sai uma festa que deu errado um copo de whiskey cerveja vodka ou percevejos em arcas perdidas. foto que eu guardei (virtual e cruelmente). um dia de chuva e eu na marquise olhando o teto cair e a santa cecília pedir: menos, menos, calma que a gente é fraca e o santo é pouco... a parte triste é o que sai da gente não poder ser lido por mais ninguém, ninguém entende o que quer ser dito nem o que se tentava dizer. eu não quero mais dizer nada, bote meu estômago para dormir, eu quero falar em cinema, imagens dispersas de dias que acabaram e não falam mais nada. o passado está morto, o que está é, e o que sobra se faz agora.
'eu sei'
'pode dormir'
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Momentos / Memento
quem descreverá o espaço entre a borda e o abismo?
quem tentou ficou no meio
quem imagina fica mudo
eu flutuo no espaço
do instante
em que alcanço
o fundo
quem tentou ficou no meio
quem imagina fica mudo
eu flutuo no espaço
do instante
em que alcanço
o fundo
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