terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Andorinha só


 gente que se tranca lado a lado
 amontoada
 na horizontal na vertical murada
 ou sozinha
 
 não faz cidade

Cena


 a mulher na sacada em frente
 fingia não saber mais
 mas sabia e ainda
 sim fingia

 que ao lado à parede colado
 pacientemente estava
 alguém esperando ela
 fazer o mínimo ruído

 ela resistia
 fingindo ceder

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Poema (ditado pelo espírito...) - VI


 trill em dó grave, crescente, magnânimo
 ao ponto de, estanque, cru e seco
 matar um sexo, prisioneiro
 verde peixe viscoso
 em seu próprio lago

 pérola imprópria, é;
 você num sempre, eu ausente
 poema negado.
 

terça-feira, 26 de julho de 2016

-



 a água sobe do ralo
 jorrando restos átomos
 que o banho me livrou

 rebelião triste das nossas águas passadas!
 ocupando cozinha e serviço
 persistem, porém fracos
 virá alguém pronto
 fazer voltar o tempo comum

 ralo - trabalho fácil
 quem, pergunto, quem
 desobstruirá suez, mumbai e lagos?
 as bordas do rio pinheiros
 os morros do morumbi



 


 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Lamento


 oro em prata
 choro em ouro


 terno soco      
 ou fissura
 no fígado
 súbita ternura

 clamor duma ausência
 bandeira branca, nunca

 punch veludo
 choro rouco
 luta, luta... 
 
 clamor duma ausência
 bandeira branca, nunca




sexta-feira, 10 de junho de 2016

Felicidade-Shopping


 que coisa engraçada a gente é quando se descreve. principalmente na internet, nos aplicativos, currículos íntimos... há sempre algo sobre felicidade, paz, boas energias e umas calhordices assim.
 fiquei cansadinho de tanto vocabulário positivo, alegre. me veio uma frase: eu não confio em gente feliz, mas não sei quem disse. ou o ser é cego ou é canalha mesmo - olha esse mundo aí - ser tranquilo e feliz num carro indo prum shopping, por exemplo. do lado de uma favela perto dum córrego poluído no ar poluído. aí um menino pede no sinal. o sinal abre. e aí várias filas, do estacionamento à loja de porcarias, passando pelo restaurante de porcarias.
 você sai, um homem dorme na grama em frente ao shopping.
 bom, isso tudo ainda dá pra relevar, né mesmo? mas a coisa piora por que tem lá dentro da gente também, uma inquietação. uma curiosidade das coisas, um medo profundo de dormir. de repente um carro freia em cima de você na rua, passa tão perto e a ferida (talvez até mesmo a morte) ficaram tão próximas, a gente pensa... olha eu podia morrer né. e aí a gente fica meio morto ali mesmo. mais simples talvez: entre as luzes da cidade as estrelas nos chocam com seus mistérios racionais e sua vastidão. é impossível ser feliz assim diante dos absurdos do casual, do imprevisível, do vasto. a incompreensão come tudo. 
 mas nem todo mundo pensa nisso, é verdade. e, oras, ninguém realmente é obrigado a pensar rio, homem, estrela, morte e sinal. talvez se pensassem, a maioria dos homens ficariam paralisados demais, deprimidos demais. talvez mudassem o mundo. não sei. mas que a deusa me livre de gente assim. 
 entre a felicidade-shopping e a esfinge, me jogarei eternamente nos enigmas insensatos que em nada dão.

sábado, 4 de junho de 2016

Segredos III


cala imediatamente, na presença de chuvas chumbo
que noites transfigura. pesa a luz, que penetrando se atrapalha
no vidro espelhado da sacada,
no alumínio das janelas padrão.

noite, falta de luz, giro de terra

o mistério que os poetas cantam
estava nos poetas
não nela