domingo, 24 de novembro de 2013

Desmáscara


 sabe, vou contar:
 essa coisa de poesia e tal
 é uma grande bobagem

 a gente mente
 tudo que sente

 pra alguém com sonhos
 acreditar

 é uma pena: às vezes
 eu também me acredito

 acabo por dar derradeiro
 o passo em falso
 no engano vazio...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Novembro


 estão aí
 outras
 as chuvas
 de novembro

 como me matam essas chuvas!

 fazem nascer alagamentos;
 deixam presas no engarrafamento
 as poesias por nascer...

domingo, 17 de novembro de 2013

19


 refazer anos:
 os dezesseis
 nus. esquecer
 a obrigação
 da coerência:
 amar tudo, e
 odiar o que
 for. esquecer
 o que aprendi;

 amar profundo
 a desobediência
 à mim.

***

 (entretanto, fiz um 
 novo ano, coberto.
 seguindo à risca
 regras de ser feliz
 e coerência interna.
 amo em silêncio:
 odeio sem saber...
 aprendo, aprendo, apreenso
 me obedeço;
 arrependido
 de não me arrepender...).

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Fin

I

 te envio uma carta
 sem remetente
 talvez meu nome
 não te faça perceber
 que fui eu que a enviei

 por não falarmos bem
 com palavras comuns
 é uma carta de desenhos.

 desenhei um sol, por que gosto
 e uma estrela. igual àquela.

 desenhei um retrato teu
 à moda de Saint-Exupéry
 então, perdoe-me
 foi o que encontrei de mais fiel. você é a rosa.

 há uma pedinte no canto direito.
 dê algo pra ela comer,
 cuide dos bichos dela.

 no canto esquerdo
 há um angorá pardo.
 não há o que dizer dele.

 além disso, há pedaços
 dum papel rasgado
 foi um bilhete
 de cinema. um dia. apagou-se
 tudo um dia se apaga.

 perdão, achei necessário
 falar disso. há mortes necessárias.

 no mais, o de sempre,
 desenhei um parênteses. eis minha vida
 olhe atento, cuidado
 pela fresta: um vislumbre
 do mato fresco. brejeirando
 rindo alto. ou cantando
 melancólico. bah - você nem sabe
 do trabalho da terra! viagens
 pequenas viagens,
 e o sono que dá, o sono...

 não pense em responder!
 suas respostas estão aqui
 prontas. hipotético delivery
 me entregam diariamente
 junto com a manhã
 o trem e a preguiça:

 nenhuma
 abri - nenhuma

 prefiro elas ali, em silêncio.

 31/10/1979

 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Poema de Segunda


 desanuviou
 aluvião
 chuva passageira
 temporão

 abri segunda-feira
 de céu azul-canção

 desanuviou
 canto chão
 lamento de ribeira
 temporão

 abri segunda-feira
 imersa em claridão

 descongestionada
 imensidão
 num grito de laranjeira
 um passo pr'além da beira
 da alegre perdição...

sábado, 26 de outubro de 2013

Melhor era tudo se acabar


 meu coração é um vaso meio quebrado
 passo em falso
 corrigido

 todo mundo tem um trinco
 ou um lado
 entortado

 um zumbido de inseto
 insilenciável

 de zumbido em zumbido
 são feitas canções

 meu coração não foi feito pra guardar

 foi feito pra viver

domingo, 20 de outubro de 2013

Citando o poetinha


 quando eu me pergunto se você existe mesmo,

 desisto:

 você nem sabe que existe.

 estamos um pouco sozinhos, como Vênus
 quando amanhece

 no entanto, nada entristece: quando volta a madrugada
 o céu se enche de estrelas

 afinal, amor
 é impossível ser feliz sozinho.









quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Poema de metrô


 te pensei na confluência das horas
               
 as rimas bonitas
     esfriaram
   
     meu coração cansado
     boceja preguiçoso.

     pedrinhas brancas na água cristalina
     - foi assim a verdade que me apresentou
       a confluência das horas

 te penso ainda
     no desaguar das noites
     não mais com os olhos de cão
     mas de um lobo à espreita

     à espera
     reluzentes olhos noturnos.
                                       
 te pensei assim
                       e não de outra forma.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Esparsa Guarida


 âmbar libélula

 porque todos os moços são azuis-manhã
 e seus olhos, aquarela?

 atenta sentinela

 não somem estrelas magras, manhã
 com a fuga da donzela?

 esparsa guarida

 porque os ventos trazem folhas, manhãs
 duma ilha distante, proibida?

 no meu leito de moço estrela folhas
 e manhã, fluida...

 na noite escondida!





Versinhos: de veranico e de verão


 estou meio bossa-jazz
 _ de quando as coisas com gosto de limão.

 e um pardal cantando no meio do mato
 _ a gente sorrindo, sentado (no meio do mato).

 ***

 estou meio trip-hop
 cantando silêncio
 sampleando paisagens
 que vi

 digerindo a fruta amarga
 mastigando a seca
 e plantando a doce

 tirando retratos escondido
 no sonho
 enquanto ele dorme

 plantando um pé de pardal
 ou ouvindo cantar um limão...

domingo, 13 de outubro de 2013

Oração


 que a fome do corpo
 não mate o senso do coração

 que a dor do corpo
 não mate a luz da razão

 que o prazer do corpo
 não mate a força, mas seja a força
 que não cegue, não desvie
 ilumine, incendeie

 que sejamos ternos
 delicados sem fraqueza

 amém

sábado, 12 de outubro de 2013

Primavera


eis a violência do vento seco
cortando um campo à beira do Sol

onde não há pais nem mães
nem sonhares, ou incômodos - nem você e o relógio

é um lugar de se estar
mergulhado em mato e céu

sem precisar explicar a vida,
vive
sem quebrar em mil
fragmenta
sem gritar alto de noite
rebenta

nunca se está completamente só:
senão só, completa a mente.



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ladybug


 na esquina da livraria
 confesso como as mãos abertas

 aquela bonita
 aquela lotada
 aquela do café
 da espera infinita

 na esquina da livraria
 irremediável como vaso trincado

 aquela do abraço
 aquela do sorriso
 aquela sempre
 calçada de sonhos íntimos

 aquela do perfume
 aquela da avenida
 aquela onde deixa levar embora
 o irreal - e ficamos com a vida

 uma joaninha dúvida
 subir garganta adentro
 pelos meandros secos
 da declamada poesia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mas é verdade


 dormem em mim
 seco frasco

 palavras insones
 formam frases

 uma delas ecoa
 busca sair

 mas no esforço de impedir, não durmo
 ... é muito moça !

 (mas é verdade)




sábado, 5 de outubro de 2013

Você vai esquecer




da cápsula do tempo, 2009


você nunca vai saber o que é real. nunca. as pessoas ao seu redor, nunca vai saber se elas são sonhos, se são verdadeiras. você nunca vai saber o que seus amigos do jardim de infância pensavam. todos os momentos do passado, você nunca vai saber se realmente aconteceram. eles passaram rápido demais, como um raio. você nunca vai saber se um raio é real. e se souber, provavelmente vai morrer. nunca ninguém que morreu com um raio em sua cabeça pode contar se foi real.

você nunca vai saber como é nadar no fundo do mar. os peixes do abismo nunca vem à superfície nos contar. nunca vai saber se existem sereias. fadas. anjos.

 aquilo que você ouve a noite, você nunca poderá dizer o que era. se era seu amor correndo, uma criança perdida, uma pessoa que se encontrou.

quando acabar, você não poderá dizer se foi real. talvez você simplesmente se esquecerá como sempre se esquece dos seus sonhos...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A sós


 as palavras já não contém a sensação inexata

 estamos a sós
 eu e elas

 observando o céu
 contando estrelas
 catando conchas

 no imerso silêncio

 da espera.

sábado, 28 de setembro de 2013

Naufrágio


onde está?
me encontre num momento qualquer
numa rua seja
qual for: repousando silenciosamente
no canto de um quarto, imaginando.

encontre-me
saindo ao mundo de peito aberto.

no navio naufragado, está tudo bem;
não leva mais o peso de tripulantes há muito mortos
repousando no fundo do mar, muito mais tranquilo que sua superfície revolta.

me encontre no barco naufragado.

está tudo bem, mas não da forma como você imagina.
está tudo bem como num barco naufrago
peixe solitário
silêncio navegar


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Pequeno Inverno


(de quando era verão)


 envolto em dias de calor, pequeno inverno
 não traga notícia alguma
 seja gentil

 despetalo novos capítulos
 protegido dum frio
 num jardim interno

 pequeno inverno, sorrio! descubro
 uma linha nova

 na palma da minha mão

 uma linha que deságua, breve
 como a mão que lenta escreve
 num mar de compreensão

 pequeno inverno, aquiesço! colorindo
 no cinza descabido

 um novo dia azul ...


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Uma dor




eu queria as palavras grandes
para poder falar das crianças de haifa
da síria
beirute
ruanda

poder falar, meu deus


daquilo que jamais saberei

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Poeminho


 tudo que tenho aqui
 é meu silêncio
 entre ( )

 ou mais sutil, nas ...

 há um outro,  , aqui

 e aqui _ ainda

 às vezes, te olho
 e :)

 feito prelúdio de um :*

 sei lá, era isso
 nada mais

 :3


domingo, 22 de setembro de 2013

A mulher que ri




saco nas costas
de lixo - a mulher sorria
um sorriso
que ninguém entendeu; nem eu

um sorriso que não era loucura
nem alegria
era apenas sorrir-se
por falta de saída

um sorriso opaco
que nada dizia

simplesmente catava o lixo
e sorrindo
se ia.

sábado, 21 de setembro de 2013

Sobre a Avenida



 _ em frente à livraria
    no caminhar dos desconhecidos
    o dia bafeja o perfume doce
    comprado em liquidação

    ali em frente à livraria, o tempo virou,
    e sobre a avenida
    o dia bafeja esse perfume alheio
   
  (como pôde imitar com perfeição
   adivinhar o verso livre
   e me entregar travesso? tarde clara

   um perfume do qual nunca esqueço
   guardado em alto relevo
   nos mármores meandros de mim).
 
 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Versos prum dia nublado

sabe dia de garoa?
sabe dia assim, à toa?
sabe dia sem beleza?
sabe dia de incerteza?

sabe reza sem fervor?

vaso sem flor?

gelatina sem sabor?

viagem por obrigação,
espera por condução,
beijo sem amor,
chá quente no calor,
passeio sem vontade,
retribuir por piedade,
gentileza por consideração
sem um pingo de verdade

eis aí, um dia nublado:
à prostração dedicado.




quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Redondilha


  que perdi pelo caminho?
  foi a luz, ou a coragem?
  longo e negro manto trazem
  quaisquer sonhos não vividos

 estava o tempo florido?
 ou de escuridão tomado?
 doce ardor no colo trago
 deste sonho interrompido...

Utopia


 em suas mãos era como se carregasse um pássaro;
 qualquer pressão seria mortal.

 seu chão era como feito de nuvens;
 pesar significava cair.

 dentro de si era como carregar o amanhecer;
 nenhum amanhecer é igual a outro.

 amanhecer jamais repete.

 em sua mente, era como se trouxesse o mais belo e fugidio pensamento;
 qualquer movimento faria esquecê-lo.

 de tudo talvez o amor residia era no olhar
 seu olhar cantava antiga
 uma cantiga de rodar ...

Relatando a manhã



 abro os olhos 
 diante da paisagem, noturno

 fico por lá 
 escorrendo uma hora completa.

 meus olhos ficarão 
 mesmo depois da memória

 - onde nenhuma frase completa meus discursos.

 descobri que não há nada
 nesse meu colo sem batismo
 nada além de outra vida
 uma vida qualquer

 outra vida qualquer
 mas tão bonita ...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Fênix



 das cinzas que virava
 com pressa renascia.

 era fênix verdadeira,
 ou mera utopia?

 o poeta bem queria
 ser a fênix primeira

 (... mas poeta que era
  em cinza permanecia)

domingo, 15 de setembro de 2013

(...)


 percorre

 senta-se na sala sem pedir licença

 revoa

 no peito. nos olhos. entre escarpas
 senta-se na mesa feito familiar

 atenta

 tenho os sonos todos tranquilo
 e os acorda. a alma feito criança
 de colo. perturba-a. revoa-a.

 sabe

 meus olhos são profundos como
 a profundidade dos campos. vê
 limpos como os desertos. repisa
 pegadas de mentira. amedronta
 se soube-se a rota das nuvens

 mas só conhece os meios dos homens!

 acredita-se matéria
 mas é só um campo de girassóis
 inocentes

 engana-se

 os dias nublados são dias de Sol disfarçados!

sábado, 14 de setembro de 2013

Monólogo (trecho II)


 [joana] : te aceitarei como outro
              não menos nua. não menos clara.
              mas como eu, uma vez criança, aceitei a lua
              que me impedia o sono.

              e, como o fiz, te deitarei na minha cama

              cobrirei com minhas mãos teu olhos
              você estará nublado, eu solta, volto
              te guiarei cego pelas vias do meu coração
              quando você chegar no remanso, âncora
              faz aquele som doce dum prazer terreno
       
              e, como antes, te deitarei sobre meu peito

              você, que é ponto de passagem, brota
              nos vincos estéreis meus. amei primeiro
              tua tristeza infinita. você amou meus versos
              ao contrário do mundo, nosso amor é rio
              correndo profundo, largo. voltarei, eu o sei
           
              e como sempre, levarei apenas a roupa do corpo
              pobre, mal possuo.
             
              sim, o fiz - antes e sempre.

 (...)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Durma bem, amor


 você diz: gosto dos seus poemas
 neles
 eu compreendo melhor
 o que você sente

 pois pense
 que nem sempre há sentimentos
 para poemas

 mas isso não faz mal: um poema
 pode ser feito de fingimentos
 sentimentos de papel machê
 e garrafas pet

 agora, meu amor
 nem sempre há poemas
 para o sentimento

 então, aqui estou eu,
 nem sei contar o que sinto
 nem sei sentir o que sei

 nenhum poema hoje vai contar o quanto de coisas
 eu queria contar. desisto:

 hoje vou mandar só um beijo de boa noite

 durma bem.

Curta


 _ tó, mãe
 _ o que é isso, meu filho?
 _ é tempo mãe, você falô que tava sem

 mãe e filho se encaram. o filho estende o pote cheio de cascas de caramujos de jardim, as mãos sujas. sobra um silêncio, passa um minuto

 _ pega mãe, que o tempo tá passando
 _ tá filho ... pera ... mamãe tá meio ocupada, deixa no balcão que eu já pego
 _ mãe, o tempo já venceu, ó, cabou
 _ ...
 _ agora só tem caramujinho. deixa. eu pego mais depois, que agora eu tô sem tempo, vou falar com a Nina.
 _ ...
 _ tchau mãe.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Monólogo (trecho)


 [ele] : joana, sei 
          que voltas
           me ronda uma certeza
           rara
           sei que te preparas

          joana, sei
          que voltas
          não o desejei - estava
          resignado

           joana, sei que acreditas
           é como a providência divina
           dissertando sobre ventos
           no coração dum ateu.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nota sobre escrever


 procuro-me, não darão recompensas: seja feliz por completar alguém dividido ao meio. 

 um menino fez as palavras do barro. Deus não saberia as palavras. Deus não existe por não possuir poesia. só é divino o que compreende a poesia e Deus seria sólido, grave, e repleto de anjos e obras. Deus seria sem perdão mesmo perdoando, indelicado mesmo na ternura, rude ainda que dulcíssimo.
 existe divindade na ordenação das frases. oração, assim chamam, coisa que pede, clama, abençoa.  
 escrever é um ofício horrível, horror, terror. quando vem a barca do medo e me estende uma mão: vem navegar entre palavras. não as quero mais. quero apenas voar no céu, percorrer o lugar comum de viver e morrer muito calmamente como um ser homem deseja desde que nasce. 
 porém me foi proibido recusar o convite desse barqueiro - vem, ele diz - e eu vou. se eu não escrever, definho. apenas escrevendo me percebo, de outra forma minha outra margem me fita distante e sinaliza, esboça uma explicação que mal vejo, ouço... é escrevendo que registro essa conexão, neste barco trafego trazendo mensagens de cá e lá, entre eu aqui e eu na margem outra. 
 ninguém me conhece por que não sei me fazer como sou. 
 vivo tudo isso que escrevo, tudo quanto mais difícil. 
 se eu pudesse, não escreveria jamais. quero ser rebatizado sob o nome de guillaume, nascido sob um signo prático: capricórnio. nasceria em qualquer lugar, onde ninguém escreveria em papel, sim em areia, para que pela manhã o mar ou o vento tivessem apagado tudo. brincaria de inventar paisagens. doeria apenas não ter conhecido quem eu tanto amo, mas há dores que nunca se apagam, por mais fortes que sejam o mar ou o vento.
 morreria analfabeto.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tentativa de conta uma história


 vamos contar agora uma história simples, sem palavras gordinhas ou destiladas: era uma vez... ou não era uma? eram duas? eu não sei ou não me lembro bem...

 "o vento estava recheado de palavras". que lugar comum, falar do vento... só eu sei o que quero dizer com isso - no entanto, houve um vento essa tarde, cheio de garoa e recheado de poemas não-escritos, eu soprava pra calçada procurando o fio da meada e só encontrava ladrilhos. não me preocupei por que eu também não precisava me explicar, apenas seguir.

 olha: minha história assim se complicando... quero atingir a simplicidade para poder me entender. vamos dizer então que era assim: não tinha mais vez, eram dois e um só (queria pular no céu). mas como pular no céu se estamos caminhando na superfície do mundo? você se lembra: o céu também está no reflexo dos olhos, e eu posso pular neles, mergulhar como mergulho na água fria do atlântico sul, meu querido e amado atlântico sul.

 talvez eu mal saiba contar histórias. às vezes eu admiro os ladrilhos da calçada e penso no atlântico sul e nos seus olhos. e nada disso faz mais sentido quanto minha cabeça pretende querer inventar, e estou me contentando em não fazer sentido nunca... talvez por que isso há de me fazer contente de fato.

 era pra contar uma história? lá vai - era uma vez alguém (não eu) caminhando por aí ao lado de alguém (não você). pelas calçadas por aí, esse alguém ficou olhando os ladrilhos do chão pensando em mares do sul, o único que de fato conhecia. assim como o mar, ladrilhos tem um brilho aquoso, aquele dos olhos... dá uma desejo de mergulhar lá dentro (dos seus olhos). talvez lá, uma ilha ? e quando você olhar o céu, mergulhar no céu. pode ser que esse alguém nunca chegue de tanto olhar pras calçadas por aí, pensando em mares do sul... não faz mal nunca chegar. não importa. importa é caminhar, é seguir em frente, é ficar assim, mergulhar no silêncio e beber dele. 

 ***

 caminhando por aí talvez eu encontre comigo bebendo uma cerveja e falando de intermitências... com o olhar vago de alguém que entende estrelas e mares. por enquanto, no entanto, estarei aqui, escrevendo as pistas que deixo para o futuro me decifrar.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Poema do Desejo


 desejo
 sentir carmim
 um meio-termo

 o que prevejo
 realizar

 - com as mãos velejo
 um novo mar

 desejo
 tocar o que há demais de mim
 em você

 mergulhar por fim
 ao que há demais
 de você
 em mim

 .

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Por quê você não pode concordar com a homossexualidade


 Eu não concordo com a homossexualidade. Aliás, ninguém deveria.

***


 Sempre que acabo de ler um artigo, leio os comentários abaixo caso existam. À parte da batalha cega de opiniões, alguns chamam a atenção pela sinceridade natural. Reproduzo um, lido logo abaixo de um artigo sobre machismo: " ... E se ela (uma pessoa) procura, todos os dias, fazer bem a todos e se preocupar com o próximo, porém SEM DISCRIMINAR, não concorda com o (sic) homossexualismo?"
 Oras, mas não é mesmo possível concordar com a homossexualidade, minha cara - assim como é impossível também discordar. Como alguém poderia concordar ou não com uma condição inerente à uma pessoa? Fico imaginando se a mocinha tal do comentário debaterá consigo mesma se ela concorda ou discorda da raça negra ou das pessoas com deficiências (sem discriminar, logicamente). 

 Aliás: tratar condições inerentes à uma pessoa como escolha pessoal já é, em grande parte, discriminação. É permitir que se possa "discordar" - convertendo preconceito em uma pretensa opinião, fundamentada em religião, moralismo ou pura e simples ignorância. Parece então mais fácil pintar de opinião a intolerância à reciclar velhos pensamentos; dói mudar, né?

 Também incomoda um pouquinho ver aqueles que, ao contrário da mocinha do comentário, "concordam" com a homossexualidade: sentem-se orgulhosos por terem amigos homossexuais no círculo social, exaltam a liberdade de escolha da sexualidade, se alegram com o aparente exotismo do mundo gay, dos chavões, estereótipos, et cetera. É bom que haja um apoio à aceitação e à tolerância: mas jamais a criação de uma aura de diferença entre homos e héteros. Em comparação, a homossexualidade pode ser aparentemente menos comum - porém é condição sexual de mesmo valor, não sendo nada bom colocá-la num lugar diferente, como uma alternativa à condição sexual "normal", que seria a hétero.

 Mas vem lá mocinha e, hipoteticamente, diz: bom, digamos que você esteja certo. Mas eu posso não aceitar a homossexualidade, e aí? 

 Você pode não aceitar a existência da segunda feira, do seu time adversário, da cor azul e do refrigerante que você não gosta. Sendo essas coisas obviamente tão diferentes da homossexualidade, tem com ela uma coisa em comum com milhares de outras: existem simplesmente, aceite você ou não. Alguns usam, alguns não usam, uns querem outros não. A cara mocinha do comentário não precisa dar um lindo beijo em outra mocinha (entre outras coisas); pode viver tranquilamente com sua sexualidade natural, que, ao que se mostra, é a heterossexualidade. O que é inútil é, de fato, acreditar que se pode aceitar uma coisa que existe naturalmente, como se alguém pudesse não aceitar o evento de um raio: não faz sentido. Menos sentido faria então aceitar o mesmo raio. Ele existe, é natural.

 Fica aí, meu sincero desejo de que a mocinha se dê conta da bobagem que disse. E que ninguém mais, num futuro próximo, concorde ou discorde de uma condição natural, mas apenas viva a sua própria e respeite a do outro - um mundo onde conceitos arcaicos de sexualidade, finalmente, desapareçam.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Para dar à alguém de quem se gosta


 acorde num domingo,
            (sem cumulus)

 estratos espalhados
     claras em neve
        reses de nuvens

 penas douradas
   em vincos espessos
      (estratos sobrados
         da chuva que passou...)

 mas,
       olhe o céu,
                      aves marítimas ...

  um balão,
                 uma trilha de fumaça,
  um reflexo,
                 que o mar propaga
  no para-sempre
                                     
 (observe o céu
 no reflexo do meu olhar
 observando o infinito
 teu)
         

Um poema perplexo


 um trovão ressoa
                 dentro

 mas não é fome

 é algo com(o) um nome
 que evito dizer.

 (da arte de se enganar
                 e mal perceber)

 um trovão ressoa
                 dentro

 mas não só em mim

 (bate um medo de repente
 assim, de tarde, do nunca mais
 e bem maior,
                   do para sempre...)
                                                                                         
                       

sábado, 24 de agosto de 2013

Conselhos


 meu cão que teve mais a me dizer
 não diz - pois não fala

 logo não fique aí parado
 me olhando com distâncias

 diga todas as flores que vivem
 entre jardineiras e venezianas

 agarre-se a mim como um passeio de balão
 se agarra ao céu

 ***

 "escave a si
 procure seu oriente
 lá talvez você encontre
 um eu diferente, ao revés
 de ponta cabeça

 antípoda de você.

 ele falará um língua
 tão de repente
 e te ensinará pólvoras
 alfabetos, álgebras
 embarcações e gentes

 vá buscar o novo continente
 no outro lado do mar
 do teu corpo

 do seu próprio eu, será outro."

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

00h00


 um sono me abraça
 onde me abarco de cinzas
 pálidas do jade vivo
 dos teus olhos

 furta-cor do pensamento
 fruta-pão na paisagem !

 um sono requento
 pra se ouvir ao relento
 da saudade.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

-


 então logo eu
 refém de mim
 precisei decidir ou desistir:
 atirar ou reviver.

 decido resistir,
 viver de me atirar
 logo eu: refém da precisão
 revivo a imensidão

 liberto-me de mim.

domingo, 18 de agosto de 2013

Mariposa Pega Ônibus


 a mariposa entrou pela janela

 eu ia para a voluntários
 o ônibus ia para santana
 a mariposa
 ia morrer.

 desceu num ponto,
 ou caiu no chão - não sei.
 (desci antes)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

- -


 eu tenho saudade daquela menina meio feia meio boba sentada na escada
 ela queria tanto amar
 haviam bilhetinhos e livros - muitos livros
 pois os livros eram as naus do seu degredo
 e o coração disparava a cada segredo
 mesmo que fosse o segredo só para si

 eu tenho saudade dela
 das coisas tolas que passaram, pois eram tolas

 e mais nada.



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Costumo amanhecer


 
 nuvens cobrem ideias claras
 - mas é pra manhã ser mais fresca.

 nos teus olhos em poças frias
 costumo amanhecer.

 desprevejo esquecer
 um guarda chuva na neblina.

 passarinho matinal
 mergulho na poça fria

 dos olhos de um bem-querer.




Quintal mundano II


 a nevoa será sempre a nevoa
 das águas que serão sempre outras
 neste quintal mundano

 eu nunca saberei se é ela que me cobre
 ou eu que a penetro.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Resumo da coisa mais bonita da vida


 um gênio que desistiu do gênio
 pra ser apenas lâmpada.



Imagine só

publicado primeiramente na engenhoca



temos falado demais

é preciso agora, meu amor
o silêncio.

os planetas alinhados
                  alinhavarão
                  teu medo.

temos falado demais

é preciso esquecer, meu amor
teu estado físico.

os planetas nunca
                 pensarão
                 sobre isso.

imagine só,
                                         nós
        corpos celestes

                                              em

               plena
                                 colisão.

domingo, 11 de agosto de 2013

A vida está um perigo


 a vida está um perigo:

 compramos margarina com sal

 passamos de 80
 numa rua residencial
 pra trocar o blockbuster por um drama alemão

 aos domingos, estará abolido o macarrão.

 trocamos as violetas
 por rosas encarnadas
 e vasos de vidro
 por copos de cristal

 entre palavras violentas
 brotarão sonhos de sal

 desarrumamos livros estáticos
 em estantes dentro de nós:

 pois é, irmão
 a vida está um perigo...





quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Um poema impreciso


 hoje, nessa tarde meio madura,
 nasce um poema impreciso
 de cores e formas
 em bocas vazias

 é errado, pois cresce no medo
 e não rima
 com fome e com medo - pra onde irá meu poema?
 parido assim pequeno
 de dentro de mim.

 ***

 mas que poema é esse, afinal
 - será feito de que palavras?

 quantos quilômetros
 percorrem sua métrica?

 ele não diz nada
 ou grita? esganado grito

 que poema é esse
 aflito?

***

 eis o poema

 poesia de peito rasgado
 jorrando abstrata
 uma ira quieta

 um leão de circo assustado
 confundido com fera

 poesia de amor incerto
 varando quintais outros
 que não os dos cegos

 era tanta luz à meia tarde
 vazando na noite pela porta aberta...

***

 ps.: (poesia cansada de velha
        recém-nascida
        resistir à vida

 era tanto sonho à meia noite
 vazando na mente 
 pela boca aberta na tua boca aberta...)






domingo, 4 de agosto de 2013

Rendez-vous



 que lindo isso
 da gente nem se ver e sorrir
 da gente pisar em falso e sorrir
 da gente virar do avesso e sorrir

 da história nos fazer sorrir
 da gente ser a gente

 d'eu te saber errado

 dum domingo fazer sol e eu tão estático
 ter a mente fora de mim

 aí.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Poema de dizer tchau


olho de canto: ninguém
pisa no pé da escada

outra vez; te beijo

e se alguém viesse?
ver o beijo

tanto melhor

e se viesse o bloco inteiro?

tanto pior

mas - e se a gente subisse no topo daquele prédio
e, lá, um outro beijo
trouxesse uma revoada
e toda a gente confundisse o que era você, eu, e passarinho
e nem a gente soubesse mais dizer

pairando no céu
acima do chão

(agora eu preciso ir)

terça-feira, 30 de julho de 2013

Versinhos dum Verão


 pense só,
              cadeiras dobráveis
              sobradas

 e a gente só,
              vento na cara

              debaixo das nossas bundas
              um cão preguiça         

 e isso só
              mais nada
              pra querer
              o mato canta
              e a vida passa entre paralelepípedos
              penteando
              a existência.
             

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Meia-noite


 paralelepípedos
 mortos - ou apenas
 adormecidos?

 piso de leve para não acordá-los
 frios de sereno

 : se eu pudesse, morreria envolto em neblinas.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Elegia 12h13 (e sobre a peça de ontem)


 _ o que posso eu contra os sonhos?

 pois os sonhos são a matéria das mãos dos homens,

 e o que são as mulheres prateadas num palco? seios nus

 são sonhos apenas. não sou nada mais que um sonho

 um poeta que vira o rosto pra trás

 e tira fotografias de quem pinta o futuro, gazes

 tules e fundos falsos. um barco que no cênico mar

 foge distante, acenando

 correr para o camarim.

(escrito em 01/03/13)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sobre mim


 hoje, por exemplo, perdi meu nome. se me chamassem por Deise eu responderia pois esse é o nome gravado nos vidros do trem; é apenas a ideia de alguém que quis sobrepujar a vida e, para isso, desistiu da alma; permanece gravado viajando na limitada rota infinita viagem. eu poderia amar sem pedir algo em troca como Deise, pois minha humanidade seria estática, ilusória - eu seria, tão maior, a ideia da realidade. alguém não me explicaria como condição ou estado; senão como efeito de ação (gravaram-me em vidro e era só).
 perdi meu nome e vou, aos poucos, decantando as perguntas - já não me respondo por elas. alguém pode vir e tomar meu corpo pois ele é apenas impressão no correr do tempo - não é fato limitado entre adjetivações - é minha existência permeada de ignorâncias sobre nascer e morrer.

sábado, 13 de julho de 2013

Sobre ela


 ela vai escavando aos poucos a nuvem sobre o seus pés até encontrar uma saída para o fundo do céu. uma saída para fora daquilo que compreende sua percepção de mim e do mundo. ninguém pode acalmar um corpo que está perdido entre cores quentes e divisas: aqui se está dentro e logo ali, abismo. ela se esconde de você por não saber estar certa ou morta - para essas dúvidas resta um choro vadio, aquele desespero de acordar e permanecer em movimento... eu a encaro, separado do corpo.

 acalanto-a. sussurro-a. escrevo-a. ela se cobre de palavras irreais e volta assustada de ter se formado porém calma, mais calma. também espero notícias de uma alma liberta, me dê a mão e sublime aos poucos. entretanto ela vai acordar por você e, no corredor, comerá a escuridão com as mãos sujas de sonhos ruins. incerta, sempre incerta, canto baixinho e a banho em prosas, poemas a vestem. um dia passado na janela observando o mundo, quieta, ela pergunta certo momento para mim qual é meu nome: eu digo o teu. nos encaramos perplexos, impedidos de desadormecer.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Sobre os teus olhos


nos teus olhos
cores dormem

 quais são?

vagarão sombras
gaiatos sem perdão?

nos teus olhos
descascam solidões

 quais são?

recitam versos
ou para comer, silenciam?

onde teus sonhos se criam?

***

nos teus olhos
observo inquieto céu
contido em varais de infinitos

margeio a imensidão

destituído de palavras.



segunda-feira, 8 de julho de 2013

(...)


           não preciso do mar
           nem o mar de mim
         
           porém em qualquer tarde infinda dessas
           seria bonito
           beber da espuma salgada
           e entre a relva dourada
           brincar de esconder ...

           
  é maior que eu,

  maior como o mar é maior que minhas mãos.

       

domingo, 7 de julho de 2013

Das palavras humanas


 o que era uma flor rubra, desencarnou

  - despidos de sonhos, os sonhos são minhas mãos
     elevadas no gesto mais espontâneo sobre as tuas

 não direi nenhuma palavra humana
 estou de pé, entre ondas
 não direi nenhuma palavra humana

 são todas incompreensíveis.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um poema, apenas (Maria IV)


 não importa, maria
           de todo o jeito, amo-te
 seja em outras línguas
            descalça

 novamente atrasada
          por contar estrelas

 te amo de toda forma:
           pois não há a forma
           nem eu as encontrei
           de te gostar ou querer

 maria,
           outras haverão
           de me querer mais

           mas a graça,
           é que te escolhi,
           
 como esta chuva que, comprida
 escolhe mansa onde vai cair ...

Relato II


 dilacero
 latejo: dilato

 ladeio; odeio
 doo: te

 todo teu
 dito: deita
 lívido ao
 lado
        meu.

Relato


 à deriva
 destroços dum discurso

 o acaso, doce, os ordena
 andando no silêncio
 de casa adormecida.

 entre horas, sussurros.






terça-feira, 2 de julho de 2013

Se eu pudesse, queimaria tudo o que escrevo


 (...) descontinuo essa frase maior e enterneço: na acolhida ela vai se romper em orações e preces cairão pelo chão como frutos. enquanto for preciso partir, as palavras também se romperão, sílabas dispersas de balbuciares... seria mais simples não discursar, mas o que eu digo não tem à quem; enquanto o receptor se confunde com as mobílias confesso quadros e criados-mudos.

 agora também vão nascendo vírgulas e espaços pelos vasos do corpo-coração, nas paredes do quarto e na sombra daquele corpo invólucro. mas não é condenável, minha frase maior apenas se prolonga pelo humano e toca a irrealidade... o inventado, vivo, sufoca. num aquário violento, o peixe verbo se afoga, violetas nos vasos e no divã, corpo.

 a irrealidade é tal: não há quadro nem divã nem corpo, o peixou estou e o aquário é a retina. violeta é a sombra noturna que apagou as formas do amanhecer e entregou o dia nublado. não fosse necessário discursar, porém destituir de signos o discurso, entregar apenas a matéria que nunca valeu de nada ainda que fosse tudo que houvesse. até hoje a irrealidade apenas me descobriu em lados não nascidos: natimortos: abortados.

 de todas as formas, amo o infinito por não ser forma; dos sonos, os despertos por estarem em fuga; dos sons o silêncio, pela ausência; dos fantasmas os que vivem, pela incompletude. dos amores, nenhum: são engodos da gente pois há algo maior que eles. eu sinto silêncios ao invés - é tudo o que possuo, quando meu corpo em outro se desfaz e desatam os nós da existência; um abandono de mim em mortes pequenas.

 se eu pudesse, queimaria tudo o que escrevo.

Conto


 " uma vez eu escrevi assim: me disse que viver de pleno o coração era natural - e eu, eu ali, não entendi nem me permiti entender, de tão grande que era o medo de aceitar a inundação e a tempestade - eu com medo da tempestade e a cidade flutuante em que vim morar. flutuo na minha calma tão triste e tão vazia que vou flutuando e aumentando em volume esse mar com lágrimas. e meu coração vai se deixando levar e vou flutuando com a calma e com a esperança de chegar em algum lugar, e não estou chegando - e é tão frágil que não pode suportar o lusco-fusco do jogo que é amar. não pedi para que fosse compreendido mas sim para que fosse aceito, então que me destruíssem e nos restos me encontrassem, refeito. mas esse não sou eu, esse é aquele que eu deveria ser-- eu queria poder me contar que eu estava inteiro naquele instante mas me cerca a duvida e me ronda e canta. talvez eu tenha sempre estado flutuando calmo e lívido, apenas por um dia estive fora de mim nu num sonho porém regressei ao final dum sono muito im-particular ... aqui estamos. calmos. flutuando.
 agora entretanto essa tristeza espelhada duma água sépia em mares abstratos é tão singular - singela - desesperadora. antes eu era criança e brincava de viver na tristeza sonhadora, assim são os meninos sensíveis às palavras (?) mas agora ... um homem disforme apenas pode dizer o quê? a felicidade e a mágoa são escolhas como escolho onde ir almoçar. apenas não escolho aquilo que sinto (mas até essa verdade se diluiu ... ). posso escolher onde chegar flutuando e posso abraçar, braçadas, frutos - ou posso me perder no tempo e chorar, e as duas coisas são válidas e corretas e estupidas e erradas pois, depois de perder alguém, depois de perder a si, e depois de ver numa tarde o mar cair sobre o céu eu já não sei de coisas certas. essa história começou quando um menino solitário perdeu o medo de tocar a realidade próxima. e batizou a descoberta por: amor. "

 ***

 a realidade próxima é uma distância. ilhas que assustadas fogem ao tocar dos barcos repletos de existência.  vamos falar do menino; era um rio-vazante de atrito e detrito afeto, por que na água seu som se diluia ao invés de propagar e perder, tomava forma de corpo e som água; mal posso explicar onde perdi as palavras disso. pois eu amava esse menino sem o encontrar entre outras paragens de comoção pública - senão nelas. entretanto ele é todo uma represa insuportável de conceber a própria vida e de se perder.
 ironicamente, este mesmo garoto amava qualquer tipo de pássaro desenhado em folhas infantis de desenhos, cadeiras de plástico, folhas secas, ele amava topo tipo de inexistência forjada sem compromisso d'alma. um dos seus pássaros era, entretanto, real, e daí eu preciso chorar goles de bebidas para não suprimir o texto, nem transbordar palavras de outros prantos. o pássaro-vivo.

 ***

 o pássaro-vivo era uma lagoa de dessobriedade - porém alçava voos comoventes que tocavam pr'além do corpo, tocavam fundo nos olhos, tocavam os espantos inerentes à vida. e não sabia disso, talvez se soubesse por delicadeza teria se retirado de cena ou aos poucos se eliminado. 
 eu não quero lembrar de como, conforme seus corpos se tocavam, meu menino e o pássaro iam se contradizendo até a síntese de seu existir. como o pássaro fugia restituído e ele caía perdido de essência, até não sobrar mais nada e eu, com as armas que não me cabiam, atirar no pássaro que voava isento de inocências. ele se diluiu em terra, e eu o perdi para sempre. desde então: resto.

Prainha


 praia seca
 grãos palavras

 capim corrente

 livro desfeito
 n'areia

 o mar bate nas frase(s/e)ixos
 crispa-se

 rochas submersas: substantivos subjetivos

 praia seca

 livro desfeito
 em areias.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Diálogo com a vazão


 _ retido em colunas
    ou leitos do rio
    perfuro meu peito
    por furos, saltos
    vasos de avenca
    crescendo

 _ retenho no peito
    saltos perfuros
    refugos do rio
    correndo nos vasos
    o deitar lívido
    nascendo
   
    : me mova do silêncio para aquele corpo
   
   

Abril, intempérie


 pausas criam
        asas

 fragmentos de palavras
 vigiando silêncios

 é inútil o esforço
 em construir o discurso
 de mudar o curso

 dizer belezas - leva ao nada sonho estrela rio nuvem
 afinal duas árvores próximas em silêncio mal se percebem
 barcos que num porto qualquer se ignoram
 e uma praia, que, sem notícias, some nas marés

 _ abril é a intempérie que nos rouba de nós
    frio seco do qual não se pode regressar.


 (abril 2013)

domingo, 30 de junho de 2013

Bailinho


 num local indizível onde despertam ervas mudas
 irrompem siroccos
 atravessados dos meus olhos soprados nos teus

 já em outros cantos, chovem clareões em sombras
 holofotes vivos, astros e outros contos
 enclausuradas de ideias. grávidos de viver.

 cada palavra ornada é uma festa de incertezas.




Diálogo com a sonolência



 _ interdito dormir

           dito o ermo
           em ter dor
           de entender
         
           este sono é indormável.
         

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Acusação da chuva


 "não sou água nem nuvem, sou evento - rito de passagem
 nasço e morro entre um outro e vento - rota de viagem

 apenas venho e envolvo paisagem

 vai felipe aprender a ser menos,
 a ser rito e meio

 a não ser água nem nuvem

 só alento"


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Dois quadros desconexos à primeira vista




          tudo fantasiado de saudade inerte
       
          contos acabados em florada
          das ervas daninhas...
     
          perdi a mão na poesia
          de propósito
     
          rebelião de verbos

          motim substantivo
       


       

terça-feira, 25 de junho de 2013

Flor-do-brejo


é não saber onde piso e de separar cada palavra e saber que elas são especiais assim, cada qual em seu lugar. eu lembro de saber que ainda não era tarde - quando é cedo ou a gente faz ou a gente não se dá conta (pra se arrepender depois).

sabe, não ligo muito ou não ligo toda a hora, nem atendo sempre. não ouço o chamado e o barulho: tanto faz, vou me perdendo de pouco em pouco. perco o fio da meada e perco o pano: no fim não é nada demais; só uma luzinha dum vaga-lume que alumiou aquele instante - capas velhas revistas e encaras, diferentes ... os sorrisos amarelam estáticos, as formas permanecem idênticas - what will you look like when you're old? what will I do if I don't know you? - não guardo retratos, rasgo bilhetes, queimo ingressos e amparo no meio de frases, consolos.

outro dia, na esquina suja de mato lá perto de casa; o cheiro da flor-do-brejo antimatéria se conteve - é tão enjoativo que me cristalizou por completo. nas outras formas de viver, amar nunca se acaba; silencia.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

(...)


 com horror percebo saber possuir
 qualquer susto e um punhado de memórias
 ou anos
           
 cada ato é percorrido
 relances,
                de escada
                cada dia
                vivido

 versejo bobagens sob mantos
 minto amores e velejo
 tenho medo de amanhecer demais
 ao invés da madrugada

 (eis o segredo que eu desejava te contar
 às vezes penso - só eu sei dessa noite
 onde sou velho e vivo ao revés
 rindo do amor - do tempo - de partir e chorar...

 um rio de você)






quarta-feira, 12 de junho de 2013

É isso (mais nada)


 queria eu tomar esta tua chuva
 pra mim. roubá-la. comê-la.

 construir nos diques do espaço
 um vazio cometa

 cavar nos aterros claros
 desconexos poemas

 fixar minha sombra no ar
 saltando em seguida - sutilezas

 roer o osso do mundo
 e encontrar aqueles segundos
 onde eu roía carne:

 você, calado de espanto

 depois de um dia assim, violenta neblina
 garoas correias
 esbarrar com o destino
 destro

 é isso,
 (mais nada)


terça-feira, 11 de junho de 2013

Viagem


 meu estado de cansaço se descreve apenas como superlativo ou totalmente físico. o cansaço. o tempo varia margeando e eu o sigo - quando chego na rua bresser estou pingando algo cinza cor-olhar. meu pensamento como barco num novo mar ou uma terra sem lei parece até que eu perdi de vista aquilo que eu tentava precisar os contornos _ há rostos e costas, escarpas e morros que eu sempre me esqueço, e ficam confusos se perdem no dia seguinte. quero pensar mas desisto. e o gesto que me move para alcançar se perde. aonde estava o turbilhão que eu amava querer entender? já não sei.
 venho embora e tomo o metrô.
 tenho a certeza de não me possuir ou compreender e acho então ousado querer entender o outro, o passo seguinte, o limiar das pontas dos dedos _ mas explique-me, há tanta gente no metrô, como não posso ou não seria necessário ... são rostos e rostos dos quais eu me lembro, um velho com cara de índio americano, uma mulher cega que me estuda e perscruta ... descambo num vazio e acabo sem querer querendo encontrar um rosto que esqueci na ânsia de tentar assim poder rever a mim, como num espelho; espelho opaco e frio que eu toco com minhas mãos quentes. caminhos enveredam por certezas novas que eu vou colhendo _ adotar um gato _ e viajar _ e ter filhos _ encontrar alguém _ um passeio no parque _ e elas vão se assemelhando a uma vida que não possuo nem é minha. e eu nem desejo nada disso. aquele dia chegando em ribeirão, eu desejei amar qualquer coisa, preciso amar qualquer coisa, preciso olhar o mar e amá-lo preciso ter nas mãos um instante e amá-lo ... hoje de manhã escrevendo este texto, eu desejo



me partir

***

o processo descontínuo de viver é um cansaço infértil em mim hoje e desde que precisei fazer brotar uma hera nos meandros do peito. então, imperplexo ainda, entendo que preciso começar a narrar uma história mas não sei ainda bem ao certo qual delas poderia discursar no meu lugar. de qualquer forma: será preciso a tentativa e o erro, e se me perder o sono ou a conta posso ter certeza que _

 era uma vez, fora de qualquer corpo, aquela ideia insincera de viver ao menos no máximo ou ainda: era uma vez o teu corpo - ou a ideia do teu corpo aos meus olhos, vítreos. se ele pulsava era desnecessário dizer, considerar aquelas juntas como algo próprio de um ser sempre foi muito além de qualquer verdade. simplificando: você é/está. eles são num ser somente. eu sou em ti. você é em lugar algum, porém em qualquer hora do passado, foste. é isto que eu devo narrar. a imprecisão de ser estar enquanto vida pois enquanto homem os adjetivos se desdobram; se confundem onde viver é uma plenitude disfarçada de sombra e você não sabe errar e acertar simplesmente. o momento início é: o corpo, mulher cega e o desejo de amar qualquer coisa em instantes homeopáticos. 

 o corpo:

 (...) meu estado de cansaço é superlativo, entre parênteses apertados tristes e cheios de subjetividades ... eu preferia apenas consentir em nascer e morrer. brotar e murchar. haveriam outras opções além das que, em colisão eminente, meu corpo procurou o teu e encontrou passados? 
 o metrô passa e atravessa o cenário triste da cidade que me abriga entre tempestades, onde você me espera para não ser mais só - e, eu, só mais um ou outro dia. transito entre instantes pois o tempo se curvou ao meu prazer e agora estamos dançando uma valsa em dois... de repente meu lado se preenche de ar ou ausência, variando entre esperas e um barco que sem sonhar se continha no meu calar. de surgir em surgir eu preferi evaporar - espere
                                          era só uma viagem de metrô como qualquer outra, meu corpo perfilando-se ampliando nas curvas. quero contar e preciso contar como me expando em sentir amar por aquilo que se esconde na sua cavidade ocular; onde eu não chego; também não chegam minhas delicadezas. quantas são as partículas que, sem se olharem, se margeiam e formam cada delicada curva no seu corpo tão fora de mim? quando meus dedos alcançaram os vales mais indigestos não havia nada: apenas terra desolada e silêncios. eu chovi inúmeras vezes e não ouvi respostas do tempo.
 por tempos: amo-te. mato-te. teimo-me; desconfiando ao mesmo tempo das palavras. no vagão onde ainda resto ouço falar em amar e matar, teimosias humanas, palavras tão compridas e exatas. mas por "amo-te" me limito a significar: versos que saem pela minha boca e mãos e eu não compreendo. por "mato-te" significo: sombreio e me escondo na multidão, simulando sua ausência agora sempre. investigando assim as palavras elas perderam todo formato sagrado inicial e, por isso, ouso escrever.

 mulher cega:

 (...) ela veio de algum lugar muito à leste da cidade, e ali no vagão ela me encarou com os olhos que não possuía. você me enxergava de pé porém: jamais viu.

 desejo:

 (...) o desejo queima lento, é tão forte incenso ... senti o cheiro queimar longo, madeira, mas eu sentia medo também, e pudor. vi o incenso se desfazer como cinza e a previsão do futuro era essa: parece o inevitável buraco fundo - eu estava caindo e paro caindo e paro até que eu digo - não quero sentir nada disso, quero ser paz profunda que cai lenta até atingir o breu num baque - eu já não cheguei no tédio? não, eu cheguei na primeira barreira até lá e foi insuportável sentir o calor que emanava. quero o sangue mas não posso suportar; quero a paz e não posso suportar tão menos. não suporto oestes e lestes: meu cansaço é bidirecional. 

Entre grãos de areia


 essa correnteza, bem sabe
 frágil incerta
 recriará no espaço do antes
 o "desse depois" (enquanto havia)

 essa correnteza, tão inútil
 (tecido do espaço tempo)
 nos move, encontros e opostos
 nas contrárias vírgulas.

 vivemos imperceptíveis
 espaços mínimos
 invisíveis
 sem tempo
 entre os grãos de areia.

 ***

 depois, passamos.

 hoje, estou eu.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Animal noturno


 marcou pegadas
             em mim: trilha

 sorrindo, a abrir caminho

 ignoro os ruidos
 mas sinto o erro

 como se, animal
               noturno

 rompesse madrugando
                                               o formato das coisas.


Poema Tecelão


 fazia anos
  todos os dias
  tecia o tempo
  e cosia
  na grande fiadeira
  de cerzir
  lãs atemporais
  infindas.


  fazia anos
  todos os dias
  e outros serviços.

domingo, 9 de junho de 2013

Para que as palavras sejam abrigo


 eu queria aquelas flores menores
 brancas vermelhas

 aquelas
 que crescem na inconsciência

 todas
 que ornavam os atos

 mortas
 aos pés dos santos

 desejava-as como peças
 suas pétalas

 seus passos
 ombros. silenciosos ermos
 de vida. isolados.

 eu querias as flores menores
 detalhes brancos vermelhos
 mas era desejar o etéreo
 e, de ato em ato, parti-me
 de cena em cena, para não mais.

sábado, 8 de junho de 2013

Poema meio bonito (Maria III)


 maria,
          gosto do teu jeito manso
          das saias amassadas
          dos teus erros francos
          e passos errados (guardei todos)

          gosto da sombra fina
          que teu corpo faz
          contra o Sol

          do teu cheiro doce
          e olhares fáceis (guardei todos)

 maria,
          gosto da tua tristeza
          tanto quando da alegria
          e das pausas. todas.

          gosto de como você preenche meu olhar despretensa,
          gosto de sentir sua falta aos pouquinhos

          (só não gosto de te lembrar
          que preciso te esquecer).

Poema meio sentimental (Maria II)


 se você estivesse aqui,
                                  maria

 diante dessa aurora,
                                rajando o céu

 seu coração ... face

 ganharia um par de asas,
                                       eternas
 sua sombra seria minha
 todas as outras seriam
                                    versos ...

 maria, esta aurora é da cor,
 das poesias que fazem o meu coração ...

       

quinta-feira, 6 de junho de 2013

(o meio de um conto sem começo nem fim)


acordar é estar orvalhado, ser acordado é lembrar de cicatrizes, orvalhar é estar fora de si _ sereno.

andei ficando bravo. é pra ficar bravo? não sei, conta pra mim? tenho ficado bravíssimo como os aplausos duma peça de um ato. meus gestos crescem pra além de mim e me transpassam, horrorizados de serem meus: ele num crime tirou meus olhos da paisagem mas não tirou a paisagem dos meus olhos - o que serão as nuvens que estacionam na íris-esquerda, distantes e róseo-purpuras? são sonhos por viver ou só depois de esquinas sujas e corpos corpos usados? você: um corpo. mas, e eu? que sou eu? essa pergunta universal move meu gesto gigante me varando o ser, sem-blanche (apenas noir), preocupadíssimo. é com pudor que recordo do único momento em que nosso olhar se cruzava sem medos, animais. sinto um arrepio de nojo e uma tristeza corrente pela inocência onde me afogo e embebedo - entretanto agora ela está morta, cega. acabou. fiquei com a paisagem apenas, um objetivo ou um assunto, mas a inocência: essa despertou. o que é um menino sem inocência senão uma sentença de morte que não se cumpre?

 parece que, sem querer, amanheceu. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Ex-cêntrico


 foi engraçado
 um dia - remetente
 no outro - destinatário

 quando dei por mim
 a mensagem na garrafa
 traguei

 talvez fosse gole de ilusão
 em inversos destilados

 sei apenas que até hoje
 vomito coisas jamais ditas.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Poema de alguém olhando as nuvens (ou Lembre-se de mim)


 _ evito tropeçar 
                        nos meus próprios sorrisos 
                        um dia te esbarro
                        ilícito!

 _ te peço um cigarro aceso
                        pra queimar
                        o momento

 _ vou te atropelar no tempo
                        testar sua simplicidade 
                        ver se moram ainda minhas
                        quaisquer coisas sem nome
                        no teu futuro coração.

 _ quem sabe eu te encontro crescido?

                        mas ainda menino
                        quando a gente não lembre
                        de acordar...

sábado, 1 de junho de 2013

bolha nº 3 (translúcida)


 bolha
 translucida - nasce, secreta

 sopro-a

 quero-a tanto
 que estoura!
 multiplica-se
 fraciona-se
 parte-se em brilhos
 turvas gotas

 bolha translucida

 transversal

 à inversa lucidez

 da luz.

bolha nº 2 (opaca)


 ... eu queria contar essa história pra alguém. essa história que nunca começa, pois precisa ser contada. como um bordado não existe sem que o tecido seja, primeiro, violado, e a linha o trespasse. não quero divagar. a história nunca começa, sopro as bolhas pra que sejam eternas - mas tornam-se eternos os sopros, morrem as bolhas. as bolhas são mais bonitas, porém. também são as crias que não vingam. e os sonhos que morrem, as falas interrompidas.
 a certeza de que você vai morrer é uma lança que, me cortando, não dói. talvez porque você não signifique nada ainda, talvez amanhã. você é uma bolha que eu soprei - preciso encontrar o sopro. que permanece.

bolha nº 1


 se alguém olhasse bem perto da bolha e visse um universo? nesse universo vivem seres que se perguntam coisas de luzes, de narizes rarefeitos, corpos limpos. a bolha dura um tempo de vento soprar além do muro da casa para rua (espanto e felicidade do gerador da bolha) - nesse tempo único nós deuses estivemos na presença dos seres rarefeitos de narizes, da bolha nascidos, que meio tempo entre a brisa e o estouro tiveram a ousadia de se perguntarem - quem somos eles?

 ***

 antes de se esvair em sabão e gotas, no universo um poeta existia. tiveram a ousadia também de possuir poetas e escreviam coisas. nós deuses não pudemos (mas teríamos) classificado-as grama e filo e mentirosamente tal qual boi em pasto a palavra que emanou da bolha.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Há qualquer coisa


 há qualquer coisa em meu peito
 
 qualquer coisa como um pássaro
 que em tom menor cantasse aquela canção vadia

 inexplicável melodia.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ruídos nº 4

me cansaram os silêncios

das flores

das mesas postas



_ não falo, não penso

não rimo


me deixaram as brisas

os campos

as paroxítonas



_ não rio, não choro

estou ali, desestado

 atado



zombam de mim os sonhos

os rios

e o mar


_ não! não quero barco -

quero a vaga sonolência

daquela manhã que perdi por engano
(um menino perdido que dormia sem fim)

eu quero aqueles silêncios
que se desdobravam em mim...

Pobres considerações


entre folhas secas no quarto de alguém que viveu

"

 _ um gesto que, por maior que eu, me transpassava e me obstruía - fiquei impossível - não segui dormindo. despertei no meio duma gota fria de suor, que me envolveu nos segundos antes desse gesto tão grande onde eu toco seu rosto; ele me traz sua presença apagada ... ainda fito o momento que passava por mim, agora dissipado. cheira.
 preciso de um corpo que contenha, que defina. preciso me conter como um corpo d'água e estou assustadíssimo de despertar. não entendo. vou sentar à beira da cama e seu rosto ainda é táctil, vivo. eu havia me esquecido de detalhes, mas esse gesto me trouxe os vincos ao redor dos olhos dele feito caminhos na terra. há tanta coisa para lembrar, entre dias e dias e de repente, ele. um corpo morto por silêncios. palpito. trêmulo. 

 ontem eu, transcendendo, entendi.
 entendi a vida e como um corpo fora de si permanece outro. precisei chorar mas não pensei nele, pensei naqueles que amo e amei, enquanto em êxtase dentro de mim dentro de um palco ou uma luz ... entendi amor e fui amor. ali começou meu gesto, que era menor e carregava minhas mãos em levezas, minha boca em diálogos, meus olhos em lágrimas. cheguei em casa com outros corpos no lugar do meu e apenas deitei. entendido da vida com um erro que eu não sabia ou quis. mas esse gesto veio comigo e me traiu fazendo compreender um homem dado morto, calado, desfragmentando meu corpo em poemas.

 eu, sublimando em versos.

 como cheguei aqui não sei. creio que foram anos ou meses que me distanciam dele e do seu corpo tão esguio como linhas que, por acaso, se encontraram. além disso, não há o que contar: ele escrevia poemas - dizer basta para estancar tragédias e possibilidades daquele menino todo homem. levava roupas simples. tinha o quarto simples e as palavras no entanto ... desdobravam-se em barquinhos que eu deixava a corrente do pensamento levar silenciosos sem ressoar metálicos na minha mente. eu evitava pensar; ele excedia o pensamento e transbordava nos olhos.
 era, sobretudo, inocente nos modos. eu carregava malícias que ele não podia saber. na confusão da torrente de ideias e da inocência nasciam tolices, palavras erradas, problemas inventados, toda irrealidade táctil de uma mente que se sobrepunha à si própria em meio ao amor. depois, compreendi - não como hoje compreendi poesia, porém - e sorria ao lembrar do vacilo dum corpo. ri. ele perpetrava pequenos atos violentos. jogava entre afeições palavrinhas maldosas. até que por não-sei-o-quês ele sumiu. e eu fingi esbravejar mas aceitei o ódio como se aceita uma palavra dura duma criança.
 então fui despido daquele pequeno passado - seguindo, amando, doando-me de corpo ao que apareceu.

 me subiu sob o corpo um verso: quem são os anjos? serão essas sombras que te escapam do sono? e fiquei acordado aqui tentando voltar ao que fui até ontem, destranscendido puro e simples, esquivo de sonhos ...

 não sei escrever. essas palavras me vieram nascendo por outras mãos, pelo gesto de sobre-mim. suspeito saber onde andam os olhos sujos dele, sujos sempre de melancolias tão vivas, animaizinhos que se debatiam, debates, abates. estão os olhos perdidos em lembranças. hoje invento uma explicação para essa dor que me entorpeceu através dos espelhos - nunca fui assim, des-amado. surgindo dum egoísmo ao qual conheço quero não-entender os porquês dele. e estavam enterradas todas essas sombras de ideia, como hoje numa noite pretensamente clara ele se assombra sobre mim? o que me desespera é que não são acusações (antes fossem) mas são apenas tristezas que se prolongam para fora das raízes dos verbos. não me era permitido compreendê-lo e agora numa torrente de saber não só compreendo mas recebo. quero fazer perguntas descabidas para as quais não existem orações e te bater com punhos abertos ... mas, meu deus, ele ofereceria a outra face e aí nasce meu desespero incontido. ele sorriria feliz.

 a noite me delata. os objetos caseiros se esbarram. uma vez de pé, me deito. deitado, levanto. escorro pelas paredes sem me espalhar pelo chão - em crayon, esboço um verso e um retrato na parede da sala de estar sem cortinas, entre penumbras dos postes lá fora. agora me veio que ele deve ter achado quase bárbaro a sala descortinada quando aqui dormiu. mas, de fato, ele dormiria em qualquer lugar, ele apenas buscava um corpo como um barco ao qual se agarrar. ali, era eu e estava presente solidificado. ele dormiria em qualquer lugar pois ele não estava de corpo presente como eu. onde mora sua essência? preciso questionar suas horas pois agora que você me veio não te conheço ou sinto. passei, rompi, evadi-me. eu era tão feliz.

 agora, parece que consumi a vida.

 ontem sobre mim havia uma luz púrpura - fui jasão mas chorei como uma medeia rasgada. me despi de mim. saí daquilo que me foi dado em batismo e caí no outro lado, era ali a vida pura correndo, tudo compreendi e me era dado ... depois houve festa, barulho, suor ... comemoramos como loucos ... mas acho que o gesto que crescia em mim já era um incômodo quando senti aquela necessidade de voltar e voltei ainda etéreo mas consciente. eu nem lembrei seu nome. como é teu corpo sob a luz?
 porque nasceste da minha escuridão?
 por favor, se subtraia de mim.

 antes que amanheça, preciso ver se o céu não se desdobrou em dois. sua presença não está na casa senão em mim e no céu. corre a rua um frio que conserva qualquer brilho, preciso contar isso à alguém mas me parece impossível ser compreendido de tanta compreensão. entretanto ele saberia o que dizer entre pausas que não se despedaçavam ... mas não posso ligar ou gritar ou quem sabe esperar um encontro inesperado numa estação qualquer, isso seria ceder e preciso entender quem fui não mais quem sou ou entendo. já não me conheço de qualquer forma. meu corpo numa pele em artifícios, minha carne ... que sangue é esse que eu não sorvo ou conheço? quem me deu meus olhos? eu - envelhecerei e ele não saberá meu rosto. eu preciso lhe contar como abro minha carne à sangue frio sobre um palco de fumaças ... você precisa saber homem, mas já está tarde. estou semeado da sua recordação repentina como se num instante fosse descoberto que era possível te amar como a mim mesmo.

 como fosse preciso enfim te reconhecer e me desfazer em verdades - era reparar um erro ou estancar uma flor vítrea. você é tão digno de amor _ meu deus. meu corpo se torna amor, amor em outros nomes como campos ou ígneas rochas. o gesto está totalmente trespassado de mim e eu dele, e, agora enfim, te tomo entre braços impossíveis e sussurrarei: entre marés, me perdoará por aquiescer e sorrir. não dormirei por cinco noites. batizarei outros corpos do teu ... além disso, não há nada que eu possa fazer - deite-se comigo e, por favor, me faça dormir.

"

terça-feira, 28 de maio de 2013

Reembolso


 veio o correio
         me dar de volta
 minhas sombras
         reembolso postal
 em mala direta
         sem remetente, cartão
 ou coisa alguma
         apenas as sombras
 e este dia de sol
         queimando viva
 a pulsação das pedras ...

 sento-me na escada do quintal
         o correio parte
         acaricio minhas sombras
         usadas, alimento-as
         com um sorriso

  _ uma delas está partida ao meio.
     uma delas está roubada
     uma delas tem tua cor, empalidecida

     uma delas, no entanto, procurava apenas compreender
   
     as coisas à luz do dia...

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Segunda-feira


 recite meu nome
 como se eu não escrevesse
 não gostasse de Pessoa
 ouvisse rádio
 ou dissesse coisas conexas

 como se meu corpo fosse mistério
 e não lesse sonetos
 navegasse silêncios
 em diminutas imensidões

 lembre-se de mim
 como se eu não fosse um acidente
 e permanecesse calado
 nunca jamais te fitando
                     te fitando com olhos mognos

 procurando estrelas em reflexo do céu.

domingo, 26 de maio de 2013

Pra gostar de alguém - In Memoriam


 espere atingir o ponto

 da maré atingir os olhos

 em barcos de preces roucas

 ecos de passos

 ...

 espere a vazante

 nos sonos cansados

 regatos parados

 barquinhos-machê

...

 ao sentir um cheiro triste num cômodo qualquer
 desperte. me roube um poema. me dispa de mim.
 sonoro _ crivo _ alastro. percorro e permaneço

 fujo de compreensões sobre seu corpo-mastro

 eu, leme.

Pra gostar de alguém V


 guarde com laço e fita
 cada memória amarela

 (permita que esqueça)

 separe
 a metade mais bela
 - da outra, nada pude fazer.

 dessalgue a alma
 amoleça as carnes
 destempere crenças

 (e não se esqueça)

 cada gesto sela
 um tesouro aberto.

 cada esquina escreverá canções em falso.

Pra gostar de alguém IV


 ouça bem o vazio
 nos discursos do vento

 não se esconda: permita-se chover

 não negue carinho à nenhum cão

 e ao fechar os olhos
 lembre-se de alguém

 alguém em silêncio que te ofereceu, inocentemente, o coração.

Para gostar de alguém III


 deixe decantar a chuva

 ao céu
 direcione uma câmera escura

 reserve um domingo

 revele os negativos

 (no fundo da chuva decantada
  há uma canção
  em relevo retrato:
                             um olhar
                             pra ser amado).
 


Pra gostar de alguém II


 numa foto qualquer
 troque olhares
 com um desconhecido
 que faleceu

 preto e branco.

 acene

 reserve quando a-parecer saudades
 (e, ao som do cool jazz, você chorar).



Pra gostar de alguém


 plante uma flor

 regue-a

 olhe-a crescer como se observa a lua crescer

 assustada correr um céu
 longo, profundo, maior do que ela jamais será.

 não é estar pronto
 
 (nunca se está pronto).

Tu, pronome


 manchas na velha toalha     boletins de ocorrência
                                           tragédias domésticas

 pausas nas conversas         lembranças repentinas
                                          bau de melancolias

 poeira na estante                preguiça de sonhos
                                           fantasia incolor

 olhares vagos                     palavras em fôrma
                                          que já não cabem (em)

 poemas                              xaropes disfarçados
                                           morfina

 tu                                      
                     pronome (eu)
         
                                                   só
                                         



                                         


     

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Notas


 "what will you look like when you're old?
  what will I do if I don't know you?
 I guess that I decided not to ask the day I took the road."

 pensei tão gravemente na sua pele se curvando sobre si, e nos cabelos finos caindo caindo caindo caindo caindo ... sons graves ... sei entretanto que você morre antes desse fim. compreendi tua natureza. você é como uma peça maior que o som de tão bela e triste, apesar da alegria aparente. eu, me afogando numa agonia muda, só tive a opção covarde/corajosa: partir no primeiro ato.

 ***

 estar rodeado de si e não se conhecer - será essa a prova de algo imaterial? o espírito que me habita e é - eu, ser material, tateando seus contornos buscando saber qual formato possuo e limito ... eu, limite duma coisa a qual pertenço e possuo sem, entretanto, comandar.  

 ***

 se você amar, simplesmente, no violento ato eterno de encarar sua própria face no espelho - ou, com os pés, esmagar uma flor. esse amor nascido de violência, surpreso - e se você amar? partir para fora de si e se abandonar - todos os caprichos, todo o eu, todo esmero - sujar-se como nunca antes - num passado, o antepassado divertindo-se quebrando pescoços de galinhas e vendo jorrar sangue. se você amar assim outro homem? sem a condição. as condições. afundar no sujo da incondicionalidade e rasgar prantos. se jogar no absurdo do ser/estar e viver, empapuçar-se de fluido úmido e do antes de você (matéria negra) ... se você amar? será perigoso? vamos, aos poucos, inundar seus olhos turvos, rapaz. e, da sua fantasia de menino, fazer longas tiras loiras ...

 ***

 ... e sermos jovens e percebermos - e nos apressarmos - e nos contermos - e termos medo - e não irmos pra praia numa quarta-feira - e só irmos dançar inofensivamente - bebermos sem perigo - voltarmos pra casa - e nunca partir - e sermos jovens velhos até morrer ...